O pássaro do diabo
Nessas minhas andanças e caminhadas em busca de historias, contos e causos, uma ainda povoa meu imaginário, conforme recordo a riqueza de detalhes que meu pai me relatou certa feita.
Diz-se que há mais coisas entre o céu e a terra do que sabe nossa van filosofia, eu ainda creio que o imaginário popular é um celeiro de historias que por fim, ao serem contadas tantas vezes, passam a fazer parte do cotidiano e se tornam verdade, absolutamente verdade.
Numa certa manhã, onde o frio era rompido minuto a minuto pelo sol e seu calor, um jovem de não mais de 20 anos, abria sua janela, lá pras bandas do rio da Onça, próximo ao local outrora conhecido como antigo lixão, ouve então ao longe um canto de pássaro que lhe causa estranheza “fim fim”, agudo e repetitivo.
Dia propicio para uma passarinhada, termo usado pelo caboclo matinhense para designar sua caçada a pássaros de pequeno porte que compunham sua alimentação.
Matinhos era calma e tranquila em seu núcleo central, na região da referida historia, a calmaria não tinha hora para acabar, ruas eram caminhos, caminhos eram trilhas, casas eram taperas e o único som ouvido aquela manhã era do misterioso pássaro.
De apetrechos de caça preparados, espingarda calibre 40, um bolsa feito com pano de uma calça jeans velha a tira colo, ele sai, marcando a direção do pássaro e seguindo pelos caminhos.
Entre um tiro e outro, bornal ia se enchendo de alimento para sua família, conforme andava, o canto ficava mais próximo, andou, andou, andou tanto que nem percebeu que já estava quase no fim do dia, o sol começava a dar sinais de sua partida, mas o canto continuava, fim fim, fim fim. Logo, o canto começa a ficar mais forte, mais agudo e próximo, ele caminha ladeando um rio, água escura como a noite, repentinamente ouve um barulho de revoada, um pássaro enorme, assenta-se em um tronco seco, abre as asas e começa a fixar o caçador nos olhos, fim fim, fim fim.
Fim fim no imaginário do caiçara era o conhecido pássaro do diabo, alguns diziam ser a forma do Saci durante o dia, fato é que naquele momento, vencendo o medo, o homem levanta a arma, faz pontaria e atira, ato continuo, a ave não se move, o homem vê o cano da espingarda fumegando após o tiro.
Não havia perdido um único tiro durante todo o dia, recarrega a arma e mais uma vez atira, o pássaro com as asas abertas parece se divertir com a situação, pois observa ao mesmo tempo que emite sons semelhantes a uma risada diabólica.
Neste momento, o homem sente um arrepio na espinha, apanha mais um cartucho, desta vez, um de fabrica, chumbo grosso capaz de derrubar um elefante. O tiro ecoa estrondoso como estouro de boiada, no entanto, a ave continua parada, asas abertas.
O homem invoca todos seus santos, rezas são elevadas aos céus em murmúrio, nesta hora, a ave sai do local de origem, sem bater as asas, como se flutuando em direção ao caçador, que cai de joelhos, olhos fechados, reza e ora conforme sua fé. Fim fim, fim fim.
Ouve-se uma gargalhada ao mesmo tempo em que uma rajada de vento retorce a vegetação ao redor, só após alguns minutos o homem consegue abrir os olhos, o dia ia embora, nem sinal do FIM FIM, sem a mínima vontade de esperar algo, o homem lança corrida pelo caminho, tão rápido que chega em casa na metade do tempo, pálido como a neve, sem bornal com o alimento, naquela noite, a refeição foi pirão de água, e na primeira colherada pode-se ouvir ao longe, fim fim, seguido de uma gargalhada estridente e assustadora.
