quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Fim fim - pássaro do diabo

O pássaro do diabo

Nessas minhas andanças e caminhadas em busca de historias, contos e causos, uma ainda povoa meu imaginário, conforme recordo a riqueza de detalhes que meu pai me relatou certa feita.
Diz-se que há mais coisas entre o céu e a terra do que sabe nossa van filosofia, eu ainda creio que o imaginário popular é um celeiro de historias que por fim, ao serem contadas tantas vezes, passam a fazer parte do cotidiano e se tornam verdade, absolutamente verdade.
Numa certa manhã, onde o frio era rompido minuto a minuto pelo sol e seu calor, um jovem de não mais de 20 anos, abria sua janela, lá pras bandas do rio da Onça, próximo ao local outrora conhecido como antigo lixão, ouve então ao longe um canto de pássaro que lhe causa estranheza “fim fim”, agudo e repetitivo.
Dia propicio para uma passarinhada, termo usado pelo caboclo matinhense para designar sua caçada a pássaros de pequeno porte que compunham sua alimentação.
Matinhos era calma e tranquila em seu núcleo central, na região da referida historia, a calmaria não tinha hora para acabar, ruas eram caminhos, caminhos eram trilhas, casas eram taperas e o único som ouvido aquela manhã era do misterioso pássaro.
De apetrechos de caça preparados, espingarda calibre 40, um bolsa feito com pano de uma calça jeans velha a tira colo, ele sai, marcando a direção do pássaro e seguindo pelos caminhos.
Entre um tiro e outro, bornal ia se enchendo de alimento para sua família, conforme andava, o canto ficava mais próximo, andou, andou, andou tanto que nem percebeu que já estava quase no fim do dia, o sol começava a dar sinais de sua partida, mas o canto continuava, fim fim, fim fim. Logo, o canto começa a ficar mais forte, mais agudo e próximo, ele caminha ladeando um rio, água escura como a noite, repentinamente ouve um barulho de revoada, um pássaro enorme,  assenta-se em um tronco seco, abre as asas e começa a fixar o caçador nos olhos, fim fim, fim fim.
Fim fim no imaginário do caiçara era o conhecido pássaro do diabo, alguns diziam ser a forma do Saci durante o dia, fato é que naquele momento, vencendo o medo, o homem levanta a arma, faz pontaria e atira, ato continuo, a ave não se move, o homem vê o cano da espingarda fumegando após o tiro.
Não havia perdido um único tiro durante todo o dia, recarrega a arma e mais uma vez atira, o pássaro com as asas abertas parece se divertir com a situação, pois observa ao mesmo tempo que emite sons semelhantes a uma risada diabólica.
Neste momento, o homem sente um arrepio na espinha, apanha mais um cartucho, desta vez, um de fabrica, chumbo grosso capaz de derrubar um elefante. O tiro ecoa estrondoso como estouro de boiada, no entanto, a ave continua parada, asas abertas.
O homem invoca todos seus santos, rezas são elevadas aos céus em murmúrio, nesta hora, a ave sai do local de origem, sem bater as asas, como se flutuando em direção ao caçador, que cai de joelhos, olhos fechados, reza e ora conforme sua fé. Fim fim, fim fim.
Ouve-se uma gargalhada ao mesmo tempo em que uma rajada de vento retorce a vegetação ao redor, só após alguns minutos o homem consegue abrir os olhos, o dia ia embora, nem sinal do FIM FIM, sem a mínima vontade de esperar algo, o homem lança corrida pelo caminho, tão rápido que chega em casa na metade do tempo, pálido como a neve, sem bornal com o alimento, naquela noite, a refeição foi pirão de água, e na primeira colherada pode-se ouvir ao longe, fim fim, seguido de uma gargalhada estridente e assustadora.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O conto do “Velho Dórico”.


Contam os mais experientes que quando Matinhos era apenas vila, a luz elétrica era só uma informação distante, a floresta ainda soberana e cortada por caminhos, as historias assustadoras eram comuns por estas bandas.
Quem não conhece a fama e a historia de Odorico Tavares, ou como meu pai costuma chamar Carinhosamente, O Velho Dórico, vou aqui relembrar, o primeiro delegado de Matinhos, capataz da Marinha e homem de fibra, conforme relatos, não tinha medo de nada.
Certa vez, lá para as bandas do Tabuleiro, na estrada da pedreira, que nada mais era que um caminho forjado nos passos lentos do nossos caboclos, beirando o rio, contavam que em noite de lua cheia, uma assombração assustava quem quer que passava, tamanho o medo e comoção local, que a tempos ninguém passava por lá após o fim do dia. Se obrigavam a percorrer grandes distancias mas por ali não passavam.
Estava Dórico em um dos botecos a beira da singela praça da Cidade, observava meio desligado uma conversa entre amigos, onde o assunto era a tal da assombração das noites de lua, mesmo não se interessando muito, foi envolvido no assunto, quando um dos homens, entre um gole e outro de cachaça, disse com voz tremula, denotando respeito ao homem:
- Nem tu Dórico, nem tu tem coragem de passar por aquela estrada a noite, eu fui da de metido e sai corrido de lá, faz 3 dias que não durmo. 
O homem apenas olha de canto de olho, observa por alguns segundos e fala, Pois bem, hoje mesmo vou resolver essa situação, tenho mesmo que fazer uma visita pra mamãe que mora por aquelas bandas.
E sem dizer mais nada, paga a conta e sai.
Naquela noite, destemido como só ele era, Dórico sai em caminhada por alguns caminhos, o cachorro perseguindo um rastro ou outro e seu facão a tira colo balançando na Bainha.
A lua alta iluminava um trecho do rio, na altura do caminho, em que mencionavam os moradores, O cachorro se arrepia todo, conforme sabe-se, cachorros são sensíveis ao sobrenatural, mesmo assim, o homem continua seu trajeto, o cachorro então começa a latir ao mesmo tempo que uma sombra se debatia no reflexo da lua sobre as águas, como se alguém se debatesse com os braços em busca de socorro e salvação. Na certa, nesse momento ouviu-se um Valhe-me Deus ou algo similar.
O destemido Caboclo então caminha em direção a sombra tremulante, com o coração acelerado mas com facão em punho, pronto para entrar em ação, nisso, o vento sopra forte, assobiando conforme toca a mata, ato continuo, o homem da um salto quando algo toca sua nuca, um frio percorre sua espinha e seu corpo se arrepia.
Nessa hora, seu corpo se vale da força que só ele tinha, se vira e enfrenta a famosa assombração, nisso, começa a gargalhar alto, como criança que ganho o que desejou o ano todo, o cão também parecia aliviado e latia em alarde ao riso desenfreado do seu dono.
Dórico então, de facão em punho, com um golpe seco atinge o tronco de uma bananeira, a arvore cai com o primeiro golpe, ostentando um cacho de primeira qualidade e grandes folhas que sob a ação do vento tremulavam como braços, a luz da lua e a água límpida do riacho faziam o resto, criando um efeito que a muito tempo estava enfeitiçando os pensamentos dos nossos caboclos.
No outro dia, Dórico aparece no boteco, reencontra os amigos e sorri aos mesmos dizendo que já não havia mais a dita assombração, os homens comentam entre si e a noticia se espalha em comoção pela pacata Matinhos.
Dórico chega em casa, cai na gargalhada quando vê o cacho pendurado na varanda, sua esposa sai porta afora e indaga, ele então apanha uma banana madura e comendo diz, eu jurava que assombração tinha um gosto mais amargo, e continua rindo alto.