segunda-feira, 25 de maio de 2020

Quando sua esposa não entende o linguajar caboclo

Essa é daquelas em que a gente custa a acreditar que realmente aconteceu, e se de fato aconteceu, porem sendo eu, caboclo Matinhense legitimo de sangue e alma, filho do caiçara que mais amou essa terra e evidenciou os feitos de nossa gente, o amado Paca, conhecendo como poucos o lado sarrista que todo Matinhense tem em sua essência, pois vivi e convivi com um dos típicos caboclinhos.
Contado me foi, que certa feita, um dos muitos caboclos de Matinhos, que nessa época gelada de inverno, em que os grandes cardumes de tainha tomam conta de nossa costa, que nas madrugadas adentro fazem a pescaria da mesma de tarrafa, apesar de sofrido e trabalhoso, uma grande quantidade de pessoas reviviam o cotidiano caiçara ano a ano.
Sendo este jovem, um descendente da cultura, tendo absorvido em toda sua vida a cultura caiçara, em suas rotinas, pensamentos e linguajar, não perdia uma noite, em seu celular as conversas eram em sua maioria sobre a pesca típica, com o linguajar típico.
Depois de uma semana de pouco resultado, em um sábado frio e gelado, com uma neblina fraca, uma noite escura sem luar, depois de um tempo de muitas conversas via aplicativos de conversa, ele surpreende a família dizendo que iria tentar mais uma vez, talvez ter êxito.
Saindo, tarrafa nas mãos, o cesto a tira colo, montou em sua bicicleta e foi, sendo observado atentamente pela esposa.
Chegando na costa, foi dedicar-se a uma sova, duas, 3 e 4, poucos peixes, e muito frio, madrugada a dentro, vez ou outra, encontrava um amigo ou outro, e lá pelas tantas, depois de muita pescaria, resolve voltar pra casa, satisfeito porem, com 05 belas tainhas como troféu.
Chegando em casa, estranha que a luz da sala estava acesa, apesar do adiantar da hora, adentra porta adentro, sua esposa no sofá, com cara de braba, ele observa em suas mãos, o seu celular.
Ato continuo, a mulher se levanta, de braços erguidos começa a falar:

- Você é um safado, um canalha, me enganando que ia pescar, bem que eu desconfiei, nunca trazia peixe...
- Mas do que você está falando...
- Eu li as mensagens do seu celular, eu vi você se vangloriando com seus amigos que hoje ia na casa da rapariga...
- Tá louca Mulher, do que você está falando...
- Desgraçado, você não me engana mais... e se atira sobre o homem tentando agredi-lo.
Largando o cesto e a tarrafa, o homem se defende como pode ao mesmo tempo em que a esposa ataca-o furiosamente, o nosso caboclo se desvencilha da esposa, e joga-se no sofá, ao lado dele, o celular, ele apanha-o, abre a tela e começa a gargalhar, isso irrita ainda mais a esposa, que o ataca novamente enquanto o homem continua a rir freneticamente...
A mulher então começa a chorar, ajoelha-se no chão, profanando mais ofensas enquanto o homem ri mal conseguindo falar.
Mais calmo, enquanto a esposa ainda chorava, ele fala:
- O que você acha que viu no meu celular...
- Eu vi você se “metidando” para seus amigos, que hoje não tinha escapatória, que hoje ia visitar ela...
- Haha, ela?
- Essa velha que você anda me traindo...
Uma risada estrondosa se ouve, gargalhada de filme, sob olhar perplexo, o homem mostra a tela do telefone a esposa...
- É isso, mesmo, diz a esposa enquanto volta a chorar.
O homem então lê em voz alta a mensagem em um grupo de amigos:
“Galera, hoje não vou perder a viajem, hoje vou na coroa.”
- Realmente amor, hoje fui na coroa. E cai na gargalhada...

Demorou mais de duas semanas para explicar para a esposa, que no linguajar caboclo, ir na coroa é ir até uma área afastada,  depois de passar por um lagamar profundo até chegar em um banco de areia, onde geralmente nas madrugadas estão os peixes de maior porte.  Quase que nosso linguajar caboclo destrói um casamento.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Paca tatu, lagarto? Não.

Essa é uma daquelas histórias que mais parece inventada, uma das muitas que passei ao lado do meu pai, o Paca, o mentor que tive, exímio professor de vida.

Eram tempos difíceis para nossa família, eu era muito jovem, talvez os tempos fossem piores ou melhores, fato é que sempre fomos blindados, um caso de pais heróis defendendo os filhos da realidade. Não tínhamos carro, talvez nem bicicleta, mas tínhamos saúde e vontade. Era uma tarde de calor, provavelmente um janeiro quente e ensolarado, todo caiçara verdadeiro já imaginou, calor, verão, caboclo faz o que? Vamos matar um peixe na barra? Perguntou meu pai com a voz que eu ainda ouço em minha memória, de pronto, aceitei, garrei o cesto, eu era o gajeiro daquele que era o melhor tarrafeador que conheci.
A malha 05 a tira colo, partimos, a pé, ele sem camisa, uma regata apoiada no ombro e a tarrafa no outro, chinelo de dedo e um sorriso no rosto.
Caminhamos ladeado ao local chamado por nós de fetiep, uma grande área de terra, cercada por um muro de palitos de concreto.
Na metade do caminho, de longe avistei o maior lagarto que já vi na vida, deitado na beira da estrada de terra, tomando sol calmamente, obviamente, me desculpem mas é sabido que nos meses quentes, carne de lagarto complementa a dieta do caboclo. Com a mão, o pai fez um gesto pedindo silêncio, apontou a direção para onde deveria ir, ao mesmo tempo, ele caminhava em direção ao animal.
Passo por passo, nos aproximamos sem que o animal demonstra-se qualquer receio, então, meu pai se aproxima mais, ao mesmo tempo em apanhava um toco seco a fim de capturar o animal.
Mas, a fera toma ciência da nossa intenção, fica em pé, parece história de pescador, mas um lagarto em pé, meu pai deu um salto para trás, ao mesmo tempo que o animal volta a sua posição normal, ataca com boas rabadas, nos afastando mais e mais.
O animal se retira triunfante, mostrando a língua parecendo se divertir com aquilo , enquanto olhamos uma ao outro com perplexidade, só então o meu pai cai na gargalhada e sorrindo me fala, filho, melhor a gente não contar essa história em casa, vão tirar sarro da gente.
E fomos a pescaria, muitos robalos e paratis foram apanhados, voltamos pra casa e enquanto eu me banhava, meu pai contou pra todos em casa que eu tinha tomado uma coça de um minúsculo lagarto. Esse foi o cara, esse é o cara. Esse é o Paca.


quarta-feira, 4 de março de 2020

Em terra de sapo, rã é perereca!

#Pacamatinhos 🥰
😍

Essa história é verdadeira, tive o prazer de vivê-la e hoje com o coração cheio de saudade resolvi contar a vocês.
Era meados dos anos 90, Matinhos começando a dar sinais de um progresso eminente, aos poucos as ruas iam aparecendo, a muito não se conhecia todo mundo que se via na rua e o ar de cidade do interior ia se perdendo.
Marcos Tavares, ou melhor, o Paca, morava com sua família no bairro do Rio da onça, um bairro familiar, uma vez que um terço das casas eram ocupados por familiares, a casa era de madeira, um quintal espaçoso, um galinheiro cheio de galinha Índia, um viveiro, nos fundos um enorme pé de aroeira que sempre que dava frutos, era a alegria da passarada.

Por intermédio de seu irmão, Pedro, Paca entra em contato com um senhor morador do sertão, e o mesmo dizia ter em sua propriedade uma extensa criação de rãs e estaria disposto a doar alguns filhotes, ou melhor, girinos para iniciar uma criação.
Ávido por melhorar a situação financeira, começar um negócio próprio e principalmente tomado pelo gosto peculiar que muitos Matinhenses têm, Paca inicia um projeto, com pouco dinheiro e muita vontade, uma banheira velha, máquinas de lavar usadas e outros recipientes, uma centena de girinos de rãs e estava feita a criação.
O zelo é cuidado com aquela criação eram impressionantes, todos os dias verificando, cuidando da água e observando minuto a minuto, esperando a transformação daqueles girinos em filhotes de rãs.
Certo dia, levantamos cedo, um bom tempo de trabalho, cuidados e espera, acordamos cedo, era hora de ver enfim os frutos, os recipientes tampados, nosso Paca abriu a tampa e não conteve um palavrão quando percebeu que os girinos haviam se transformados em uma centena de pererecas grudadas nas paredes.
Passado o estresse inicial, rimos muito da situação, naquela manhã, nossas galinhas tiveram uma gorda refeição a base de filhotes de rãs fakes haha.
#pacamatinhos #matinhosdopaca #familiapacamatinhos

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A história do Paca, onde tudo começou!

Paca!






Quase todas as historias por mim contadas, foram a mim narradas, e em todas, eu tentei repassar com exatidão o relato, pois a cultura de um povo é sempre preservada nas palavras de quem as reconta.
Meu Pai foi um garoto comum, tão comum que jamais passava despercebido, filho de uma família nativa de Matinhos, morador da terra, como o próprio diz, Matinhense da gema.
Filho da professora Diva, como já relatei antes, uma das primeiras professoras de Matinhos, e do Seu Nelson, homem integro, pai de família exemplar, primeiro motorista de Matinhos enquanto a cidade ainda pertencia a Paranaguá, ou seja, filho de filhos da terra, uma testemunha viva de toda a historia que hoje lembramos com saudosismo.
O menino de Nome de batismo Marcos Tavares, arteiro como poucos, corria e aprontava quase que o dia todo, conforme me foi contado, caçadas intermináveis com “cetra”, pescaria de bateira ou qualquer atividade que hoje consideramos culturais, ou deveriam, faziam seu dia mais alegre.
Numa certa feita, lá pelos seus oito anos, diz que Marcos já cansado da escola e com muita vontade de caçar passarinho, deu seu jeito e cabulou aula, naquele dia, acompanhado de mais alguns amigos, passou a mão em seu bornal, sua “cetra”, muitos “pelotes”, e ”agarrou” mata adentro pros lados do “vargedo”.
Para que todos entendam, Matinhos era apenas uma pequena praça, uma igreja e alguns casebres, desta forma, tudo o que conhecemos, que esteja fora daquele núcleo central, era mato, então, o vargedo, era pras bandas de onde hoje o bairro cohapar e Avenida Curitiba, com vegetação mais baixa, diferente da mata encontrada nos morros da região.
Caçaram o dia todo, conforme se interessavam com a caçada, andavam e andavam, o dia ia passando lenta e naturalmente, ouvia-se naquela época ao longe o rugido da onça, corrida  de cachorros caçadores, bugios ao longe e um couro farto de pássaros em prontidão.
O sol começava a dar sinais de que e breve estariam escondido por de trás das verdes Matas, os meninos absortos depois de um dia todo de caçada, sem almoçar ou sequer tomarem um pouco de água, retorna para casa pelo mesmo caminho da ida. Nisso, ouve-se um barulho de corrida, vários cães perseguiam algum animal, o caçador os seguia a distancia se baseando nos latidos dos animais, os meninos passam a perseguir também os animais.
Nisso, os cães farejam os meninos e se voltam contra eles, ato continuo, o primeiro começa a seguir o faro dos meninos, sendo imitado pelos outros 5 cães perdigueiros, ao perceberem que eram naquele momento vitimas da perseguição, os meninos começam a correr para o lado contrario e começa a algazarra de latidos e uivos, os caçadores percebendo o movimento apressam os passos.
Marcos, franzino e cumprido, em certo momento se perde dos colegas, corre sem direção, tropeça em uma raiz e cai, rola encima de galhos e vai parar no meio de uma “sarrapilheira”, nisso os cães chegam e começam a latir em frenesi para chamarem os caçadores.
De armas em punho, os caçadores prendem os animais e começam a procurar em meio ao emaranhado de folhas e galhos secos, quando um dos homens abre com as mãos as folhas, vê o garoto entocado, o homem da um salto pra trás, olha mais uma vez e diz ao menino, diacho guri, o que faz ai entocado, tá escondido igual paca, sai já dai...
O menino sai todo arranhado e com medo, os cães presos ainda latem, o caçador ia falar mais alguma coisa, mas o menino começa a correr, corre, corre muito até não ouvir mais os latidos dos perdigueiros.
Ao chegar em casa, sua mãe lhe esperava na porta, na certa, com uma vara de murta nas mãos, ao avistar o menino, sorri e o abraça, esquece a raiva pelo sumiço e agradece a Deus pelo retorno, e acariciando os cabelos do menino ela diz, Meu filho, onde você estava até essas horas, Marquinhos, sorte que seu pai não está em casa se não tu ia levar uma surra daquelas.
Nisso, o caminhão que sei pai trabalhava, encosta na frente da casa, o homem sai rápido do veiculo e segue em direção ao filho, segura-o pelo braço e o puxa, o menino ia retrucar quando o pai diz, apure menino, vamos comigo ver a armadilha, amanhã vou trabalhar cedo e não poderei ir ver, mas corre o risco de já ter pego algo.
O menino sorri de orelha a orelha, sai serelepe acompanhando o pai, desaparecem por um caminho em meio a mata, voltam quase uma hora depois, o menino ostentava uma bela paca amarrada pelos pés, aquela seria o “salgado” da família pelos próximos 3 dias, e isso era motivo de alegria.
Os preparos para ‘AJEITAR” o animal para o consumo são feitos rapidamente, o menino Marcos acaricia o pêlo do animal admirando sua beleza, olhos brilhando por poder viver aquilo com seu pai, acaricia ainda mais, sorri ao ver o pai se aproximar, então o menino diz, Pai, de hoje em diante, quero que me chamem de paca, o bicho mais bonito que eu já vi na vida, me chamem de paca.
E assim, conforme sua escolha, talvez pela emoção do Momento, nosso menino tornou-se homem, é pai, esposo e Matinhense, motivo de orgulho e leva o nome da sua cidade aos 4 cantos do mundo, Marcos Tavares é pouco conhecido, mas me diz ai, vai dizer que tu não conhece o PACA?