sábado, 8 de fevereiro de 2020

A história do Paca, onde tudo começou!

Paca!






Quase todas as historias por mim contadas, foram a mim narradas, e em todas, eu tentei repassar com exatidão o relato, pois a cultura de um povo é sempre preservada nas palavras de quem as reconta.
Meu Pai foi um garoto comum, tão comum que jamais passava despercebido, filho de uma família nativa de Matinhos, morador da terra, como o próprio diz, Matinhense da gema.
Filho da professora Diva, como já relatei antes, uma das primeiras professoras de Matinhos, e do Seu Nelson, homem integro, pai de família exemplar, primeiro motorista de Matinhos enquanto a cidade ainda pertencia a Paranaguá, ou seja, filho de filhos da terra, uma testemunha viva de toda a historia que hoje lembramos com saudosismo.
O menino de Nome de batismo Marcos Tavares, arteiro como poucos, corria e aprontava quase que o dia todo, conforme me foi contado, caçadas intermináveis com “cetra”, pescaria de bateira ou qualquer atividade que hoje consideramos culturais, ou deveriam, faziam seu dia mais alegre.
Numa certa feita, lá pelos seus oito anos, diz que Marcos já cansado da escola e com muita vontade de caçar passarinho, deu seu jeito e cabulou aula, naquele dia, acompanhado de mais alguns amigos, passou a mão em seu bornal, sua “cetra”, muitos “pelotes”, e ”agarrou” mata adentro pros lados do “vargedo”.
Para que todos entendam, Matinhos era apenas uma pequena praça, uma igreja e alguns casebres, desta forma, tudo o que conhecemos, que esteja fora daquele núcleo central, era mato, então, o vargedo, era pras bandas de onde hoje o bairro cohapar e Avenida Curitiba, com vegetação mais baixa, diferente da mata encontrada nos morros da região.
Caçaram o dia todo, conforme se interessavam com a caçada, andavam e andavam, o dia ia passando lenta e naturalmente, ouvia-se naquela época ao longe o rugido da onça, corrida  de cachorros caçadores, bugios ao longe e um couro farto de pássaros em prontidão.
O sol começava a dar sinais de que e breve estariam escondido por de trás das verdes Matas, os meninos absortos depois de um dia todo de caçada, sem almoçar ou sequer tomarem um pouco de água, retorna para casa pelo mesmo caminho da ida. Nisso, ouve-se um barulho de corrida, vários cães perseguiam algum animal, o caçador os seguia a distancia se baseando nos latidos dos animais, os meninos passam a perseguir também os animais.
Nisso, os cães farejam os meninos e se voltam contra eles, ato continuo, o primeiro começa a seguir o faro dos meninos, sendo imitado pelos outros 5 cães perdigueiros, ao perceberem que eram naquele momento vitimas da perseguição, os meninos começam a correr para o lado contrario e começa a algazarra de latidos e uivos, os caçadores percebendo o movimento apressam os passos.
Marcos, franzino e cumprido, em certo momento se perde dos colegas, corre sem direção, tropeça em uma raiz e cai, rola encima de galhos e vai parar no meio de uma “sarrapilheira”, nisso os cães chegam e começam a latir em frenesi para chamarem os caçadores.
De armas em punho, os caçadores prendem os animais e começam a procurar em meio ao emaranhado de folhas e galhos secos, quando um dos homens abre com as mãos as folhas, vê o garoto entocado, o homem da um salto pra trás, olha mais uma vez e diz ao menino, diacho guri, o que faz ai entocado, tá escondido igual paca, sai já dai...
O menino sai todo arranhado e com medo, os cães presos ainda latem, o caçador ia falar mais alguma coisa, mas o menino começa a correr, corre, corre muito até não ouvir mais os latidos dos perdigueiros.
Ao chegar em casa, sua mãe lhe esperava na porta, na certa, com uma vara de murta nas mãos, ao avistar o menino, sorri e o abraça, esquece a raiva pelo sumiço e agradece a Deus pelo retorno, e acariciando os cabelos do menino ela diz, Meu filho, onde você estava até essas horas, Marquinhos, sorte que seu pai não está em casa se não tu ia levar uma surra daquelas.
Nisso, o caminhão que sei pai trabalhava, encosta na frente da casa, o homem sai rápido do veiculo e segue em direção ao filho, segura-o pelo braço e o puxa, o menino ia retrucar quando o pai diz, apure menino, vamos comigo ver a armadilha, amanhã vou trabalhar cedo e não poderei ir ver, mas corre o risco de já ter pego algo.
O menino sorri de orelha a orelha, sai serelepe acompanhando o pai, desaparecem por um caminho em meio a mata, voltam quase uma hora depois, o menino ostentava uma bela paca amarrada pelos pés, aquela seria o “salgado” da família pelos próximos 3 dias, e isso era motivo de alegria.
Os preparos para ‘AJEITAR” o animal para o consumo são feitos rapidamente, o menino Marcos acaricia o pêlo do animal admirando sua beleza, olhos brilhando por poder viver aquilo com seu pai, acaricia ainda mais, sorri ao ver o pai se aproximar, então o menino diz, Pai, de hoje em diante, quero que me chamem de paca, o bicho mais bonito que eu já vi na vida, me chamem de paca.
E assim, conforme sua escolha, talvez pela emoção do Momento, nosso menino tornou-se homem, é pai, esposo e Matinhense, motivo de orgulho e leva o nome da sua cidade aos 4 cantos do mundo, Marcos Tavares é pouco conhecido, mas me diz ai, vai dizer que tu não conhece o PACA?