sábado, 26 de fevereiro de 2022

A historia do linguado


 

Essa é uma daquelas histórias que vem sempre recheada de afeto,  amor e muito carinho, pois muito está relacionada aos primeiros passos de um legítimo caboclo Matinhense em direção ao conhecimento de seu entorno, sua fauna,  sua flora e sua história.

Comigo não foi diferente,  aos 7 ou 8 anos já  dava as primeiras tarrafadas,  exímio gajeiro, conhecedor da arte de segurar o cesto de peixe,  acompanhar meu pai e principalmente,  fazer silêncio nas frias noites de inverno.

Era um verão quente, daqueles em que logo cedo o calor assola e você certamente vai ouvir algo do tipo “ a tarde pode amarrar as casas que vem tempestade “ , como de fato acontecia na maioria das vezes,  meu pai, eu, alias, toda nossa família resolvemos fazer um programa em família,  o velho Paca  lançou mão em seu puça,  um balde, apanhei minha velha tarrafa, um cesto a tira colo e partimos,  pedra do siri,  é assim que chamávamos, aliás, ainda chamamos o Pico de Matinhos.

Numa pescaria abundante de siri e alguns peixes, quando entre uma tarrafada e outra, apanhei um linguado,  primeiro contato meu e de meus irmãos com criatura tão estranha,  e meu pai, exímio conhecedor de causos e histórias  não perdeu tempo.

 

Conta-se que quando Nossa Senhora andava pela terra, convivia com animais e homens em harmonia, podendo inclusive falar, ouvir e interagir com todos.

Estava então a Virgem Maria passeando pelo mar,  entre um bom papo com a tainha e ouvir histórias do robalo, ela perdeu a hora e saiu apressada a fim de voltar para casa.

Nisso avista  mais belo peixe que já existiu, de uma beleza exuberante e inexplicável,  diziam inclusive que aquele sim era a face do criador,  tamanha beleza e perfeição, seu nome era linguado.

Nossa Senhora então,  aproveitando do encontro, para, olha para bela criatura e pergunta:

Linguado,  estou atrasada,  pode me dizer que horas são?

O peixe no entanto,  fazendo pouco caso e querendo arrancar risos dos que por ali passavam, faz uma careta medonha, e imita de forma debochada a pergunta de Maria mãe de Jesus.

Ela então insiste,  renova a pergunta,  novamente a mesma postura por parte do peixe, careta e repetição da pergunta com voz debochada.

Nossa Senhora então,  ergue as mãos e fala em um tom severo:

 

- A arrogância é o caminho para a ruína, de hoje em diante,  que o mais belo animal que já abitou nossos mares, que assim fique, conforme a face que se apresenta perante mim, e que passe a rastejar pelo fundo do mar e isso se estenda de geração em geração.

 

Daquele dia em diante o linguado passou a ter a forma que tem hoje.”

 

Terminando a história,  tirou a pobre espécie da tarrafa, libertando em seguida no mar e acrescentou:

E dizem que filho que faz chacota com os pais,  acontece igual,  praga de pai pega mesmo.

E caiu na gargalhada continuando sua pescaria.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A saga do Nelson


Quando eu me pego a pensar nessa historia, confesso que, ainda me arrepia a carne, e a alma ainda receia em relembrar.


Quem conta um conto, acrescenta aquilo que lhe convém, e se me convém contar, é porque eu acredito, e espero que, a mesma verdade que me encantou, os encante, espero fazê-los sentir, o mesmo que senti ao ouvir essa historia, talvez falte o fogão a lenha o breu de uma noite fria de inverno, porem, cabe a você querido leitor, se imaginar nesse contexto, e se imaginar, como eu estava, vivenciando essa historia, como é comum na cultura caiçara, de pai pra filho, passado de geração em geração.


Reza a lenda que, a muito tempo atrás, Matinhos era menos que uma cidade, uma vila, não se pode ao certo dimensionar datas, porem, havia em Matinhos, um homem cujo nome era Nelson Tavares, pai de família, trabalhador, sua marca registrada era um fino bigodinho que demarcava seu rosto branco e entalhado pelos raios solares e as mãos da vida, como todo bom caboclo Matinhense, cultivava sua roça, vez ou outra de milho, arroz, feijão, mandioca, ou aquilo que o período possibilitava a produção, caçava, não muito adepto da caça por arma de fogo, cultivava em si, a cultura de fazer armadilhas, um covo para apanhar um tatu  na toca, o mundéu no carreiro pra apanhar a cutia, e uma boa arapuca no carreiro do nhambu.


Com a pesca, era mais seletivo, raras as vezes que se via o velho Nelson a beira mar, empunhando um caniço ou linha de mão, menos ainda com redes e canoas, mas, por vez ou outra, principalmente em dias de frio,  madrugadas escuras, era possível vê-lo a beira mar, tarrafa em punho, cesto de timbopéva a tira colo, calça a meio pau e uma camisa de botão com as mangas arregaçadas.


O sol naquele dia, estava tímido, aos poucos ia perdendo a força, dando lugar a uma tarde que esfriava a cada segundo, aquele ar nostálgico que ainda me arrepia só de lembrar, o frio pouco a pouco se tornava insuportável e somente aos pés de um fogão a lenha e uma talagada e outra de cachaça, era capaz de esquentar o corpo do caboclo, já que a alma era aquecida por historias e mais historias, Nelson porem, naquele dia, resolveu não escutar as historias, apanhando sua tarrafa, um cesto, sai de casa sorrateiro, sem se preocupar em avisar ninguém, não havia perigo, logo, não havia tanta preocupação como hoje em dia.


Não havia lua, não havia luz elétrica, não haviam ruas, os caminhos eram estreitos, só quem era acostumado, poderia se guiar de forma precisa, e em menos de 10 minutos, Nelson Já estava a beira mar, olhando cauteloso, procurando o melhor lugar, como se dizia, a melhor “costa” para dar uma “sova”, ele anda por mais alguns minutos beirando o mar, vez ou outra vê um garoçá passar assustado, e logo, encontrando um ponto que imaginava ser o ideal, desamarra a tarrafa e se prepara para a pesca.


Ato continuo, ele safa a tarrafa, prendendo o chumbo na boca, anda, pé por pé, lento e sorrateiro, e ao ver a onde se formando a sua frente, faz um giro, 360º, solta a tarrafa com maestria, e a mesma cai a frente, totalmente aberta, porem, ele de súbito, da um pulo, assustado, olha pra trás a procura, algo havia lhe tocado as pernas naquele momento.


Não havia nada, ele desconfiado, recolhe a tarrafa, lentamente, sem fazer barulho algum, sai da água e caminha um pouco a frente, mesmo ritual, segurar o chumbo na boca, safar metade da tarrafa, pé por pé, giro, e soltar, agora ele dá mais um pulo, soltando um “VALHA-ME DEUS”, e recolhendo sua tarrafa sem ao menos se preocupar se havia pego alguma tainha, e olhando pra trás, pela areia, não vê viv´alma, o vento a muito não batia nas arvores, e o silencio era somente interrompido quando ao longe se ouvia o pio de uma coruja.


Nelson então sai da água, solitário, receoso, não sentia medo, mas é fato que, pro caboclo, qualquer coisa relacionado ao oculto, espíritos, assombração, almas, assustavam bem mais, do que os perigos representados por homens, por vivos, e ele caminha, vê ao longe uma fogueira, dois homens faziam “hora”, esperando para voltar a água e continuar a pescaria. Nelson os saúda com o típico “ooo”, e se esquenta na fogueira, silencioso, aceita um trago de pinga que lhe é oferecido, porem se mantém calado, silencioso.


          Pouco depois, eles voltam a água, Nelson se afasta, indo em direção oposta, a verdade é que, qualquer um, voltaria pra casa, não ficaria ali, porem ele, decide continuar, e repetindo o ritual da tarrafa, entra na água, e ao girar, mais uma vez, sente algo bater em suas pernas, como se uma chicotada fosse deferida por alguém que estava atrás dele, como um raio, ele se vira, ao mesmo tempo, uma coruja pia ao longe, dando um ar ainda mais tenebroso aquela noite fria, porem o Caboclo não se intimida, recolhe a rede, havia apanhado um belo exemplar de tainha, retira ali mesmo, joga em seu cesto, e recomeça, mesma coisa, agora, parecia com mais força, algo tocava suas pernas, e o assustava, nisso, ouve-se o uivo de um cachorro bem próximo, e um arrepio corre por sua espinha, ao mesmo tempo que sua mente cria mil possibilidades.


Dessa vez, ele se retira da água, entoa uma reza que a muito aprendera, olha ao redor, não se contem, reza baixinho ao mesmo tempo que, observa o mar, ele não pode sair dali, sem saber o que acontecia, e entra na água, receoso, porem disposto a enfrentar.

E nisso, novamente, ele sente algo chicotear suas pernas, e assim todas as vezes que soltava a tarrafa das mãos, sentia que o choque era cada vez mais forte, isso se mantém durante toda a noite, até que, cansado, vai para casa.


Ao chegar em casa, ele olha a mulher, que ao vê-lo pálido, indaga sobre o ocorrido, ele então relata, imitando ainda, como fazia ao lançar a tarrafa na água, jurava de pé junto que, o tinhoso o havia atentado a noite toda, e contava vantagem de o ter enfrentado, não se amedrontado, nisso, ao ver ele imitar o ritual de pesca, Diva não contem uma gargalhada, que o apanha de surpresa, arrancando alguns xingamentos, a mulher o abraça, e passa a mão pelas costas do marido, puxando pra si, uma das tiras que serviam de alça do cesto, havia arrebentado, ao girar, batia na perna.


Percebendo o que de fato havia ocorrido, o homem cai na gargalhada.


De quanto em quanto contava pelos botecos da vila, a historia, omitindo a parte da alça arrebentada...


- E como o senhor soube a verdade pai?


- O caboclo Matinhense, depois de um trago ou dois, virava um exímio contador de verdade, de verdade.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A verdadeira historia do menino da bicicleta

 A verdadeira historia do menino da  bicicleta -  historias da Matinhos do Paca!

Quando eu sento e escuto algo que mesmo que minimamente me envolve, arrepia, julgo ser verdade, e me julgo ainda ter um bom discernimento e compreensão.

Diz meu pai, Matinhense daqueles dos bons tempos, que, de boca em boca, em meados de antigamente, uma historia assombrava o caboclo, é com certa emoção e respeito que a transcrevo aqui:


“a noite a tempo já caída, conforme o pensamento pode criar,a escuridão era tamanha que não se via um palmo a frente dos olhos, o silencio fora das casas era somente interrompido pelo assobio de pássaros noturnos e insetos em algazarra. As estradas eram caminhos, e o meio de locomoção mais comum era a bicicleta. 

Depois de um trago e outro na venda da cidade, certo vivente resolve, apesar dos apelos dos amigos, ir  para casa no meio da madrugada. Após o gole derradeiro, despede-se dos companheiros de forma calorosa, apeia em sua barra forte, aquelas com bagageiro e um circulo no quadro, e sai, adentrando em um dos caminhos que decerto o levaria a sua casa.

Não me recordo porém se  o caboclo sentia medo, no entanto, imaginando a situação, devo imaginar que medo seria normal. Não havendo luz elétrica, ruas como hoje, carros, ou ainda viva alma, a situação que se dá a seguir tem sem duvidas o agravante da época que ocorreu.

Ao passar por uma ponte, o vivente em sua bicicleta, escuta distante um choro de criança, apesar do medo, desce, criança chorando, se guiando pelo choro, após alguns minutos encontra um bebe, recém nascido enrolado em um pano branco, chorando e chorando.

Como todo bom caboclo, apanha a criança e coloca na bagageira da bicicleta, e reinicia a marcha de volta pra casa, a criança chorando.

Mais adiante, a criança continua seu choro, o homem sente a bicicleta pesar, tem dificuldades de pedalar, volta a pedalar na escuridão.

Mais adiante, o  choro continua, agora mais compassado, no entanto o pedal agora é dificultoso e sofrido.

O homem força, no entanto não consegue mais passar de um passo lento como se estivesse subindo uma ladeira com um peso a tira colo.

Ele para, o choro também, sente que não está mais sozinho, mas não tem coragem de olhar para traz, de pé,segurando o guidão da bicicleta, desce e olha de relance, no lugar da criança, um homem de mais de dois metros de altura, com  os trapos brancos que outrora vestia o bebe chorão.

O homem do bagageiro sorri para seu novo amigo, que, larga a bicicleta, sai em corrida desenfreada, sem ao menos olhar pra traz, esquecendo até os gole a mais.

No outro dia, com mais alguns amigos, voltam ao lugar, encontram a bicicleta, nem sinal do homem grande, e o vivente, desacreditado pelos goles a mais, jurou até o fim de sua vida que era verdade, e eu acredito.”

O seu

 seu!

Ainda hoje me peguei pensando no que fazer para um trabalho proposto 

Quando se dá o tema fica difícil, quando o tema é livre, piora.

Pois bem, fui à luta e pus cabeça pra funcionar, pensei em temas da atualidade, temas históricos ou culturais, nada me tocou, e me veio à pergunta, como eu, Matinhense da gema, poderia resgatar a cultura de meu povo a muito esquecida.

Fácil, falar sobre o fandango, não, vou falar do pau de fita, não, caça e pesca era melhor, enfim, como decidir o que é o mais importante.

Por ter essa familiaridade com a cultura local, não pude de imediato entender o que é, em meu ponto de vista, a cara de um povo, a língua, não falo de português, inglês ou espanhol, falo das características únicas da fala de um povo de determinado lugar.

E em Matinhos essa cultura lingüística é muito evidente, e foi só abrir a mente que percebi o quão rica é nossa cultura e quão rico é nosso vocabulário.

Um cidadão qualquer do mundo ao encontrar outro pela manhã – Bom dia – e o outro responde – bom dia- um Matinhense ao cruzar outro pela manhã – ô seu – a resposta, opa- um curitibano espantado – Nossa!- o Matinhense – "a meu bonje"... – curitibano desaprovando algo – bem feito – O Matinhense – Éga seu – curitibano ameaçando alguém – te dou um murro- O Matinhense – "dolhe um pé do ouvido" – curitibano faz escândalo, Matinhense faz "sangria desatada". Curitibano estava nas proximidades, Matinhense nos "arrebardes".

É um jeito único de falar, alem dessas variações e criações lingüísticas, a maneira que o Matinhense fala, alias canta, com uma musicalidade muito típica, reconhecível esteja ele onde estiver.

Matinhos é tão rica em sua cultura, falta valorização e reconhecimento dessas culturas típicas nossas, vamos tentar resgatar juntos a cultura local e junto com ela nossa identidade, nossa cara, é fácil "cambada" só basta querer!