domingo, 25 de maio de 2025

VAI PRA FORA VEM CÁ!


 

 Essa é uma daquelas anedotas que você ouve a vida inteira, e a cada vez, você ri, muitas vezes genuinamente por ser de fato engraçada, algumas vezes para alegrar aquele que a contou, neste caso, ainda povoa minha mente o meu pai me contando e arrancando risos de todos que ouviam.


dizia que quando criança, na casa dos Tavares, um cachorrinha era o xodó das crianças, que o batizaram com um nome um tanto peculiar, talvez já antecipando situações engraçadas, ou apenas pela simplicidade da imaginação infantil.


o animal era chamado de Vem cá, era um tal de vem cá pra cá, vem cá pra lá, era a alegria da casa e daqueles que ali vivam. 


Menos um, nosso saudoso Vô Nelson, um tipico matinhense da gema, durão como poucos, mas bondoso na medida do possivel, não gostava que animal algum frequentasse a casa, antigamente, era até comum, diferente dos dias de hoje em que os bichos tem quarto, roupa e sobrenome.


Então, diz que num dia, em que todos estavam almoçando numa grande mesa no centro da casa, quando, o cachorro sorrateiramente entra porta adentro e começa a fuçar os pés de todos em busca de um pedaço de comida.


Ao tocar o pé do Velho Nelson, o animal arranca uma exclamação negativa do chefe da família, que de imediato fala:


Vá pra fora, Vem cá!


Acostumado com os dizeres da familia, o animal foi até a porta, e ao ouvir o “Vem cá’, da meia volta em direção ao homem.


Todos se entreolha, Nelson cada vez mais irritado fala mais uma vez “Vai pra fora, Vem cá”, novamente, o cão vai até a porta e volta, clima tenso, o homem já com as pestanas tremendo esbraveja novamente:

VÁ PRA FORA, VEM CÁ!


E o mesmo acontece, nisso, toda a familia, não aguentando mais a situação, cai em uma gargalhada coletiva, divertindo-se com a situação.


Conta meu pai que meu avô não aguentou e também gargalhou alegremente, cedendo aos encantos do mascote da familia.

A Fábula da Vida Real em Matinhos, 1970 e Poucos

 


Matinhos, década de 70. Um lugar onde o asfalto era mais lenda do que realidade, e a rede elétrica fazia suas visitas esporádicas como um parente que só aparece no Natal. As ruas eram de barro, as bicicletas tinham mais função que os carros, e todo mundo conhecia todo mundo — o que não impedia ninguém de inventar uma fofoca nova por dia, só pra manter o ritmo.

Era nesse cenário que vivia o jovem Marcos Tavares, vulgo Paca — apelido herdado sabe-se lá por quê, já que de paca ele não tinha nada. Corria, falava alto, aprontava das boas. E foi ele, o próprio Paca, quem trouxe pra casa a figura mais ilustre que Matinhos jamais conheceu: um cachorro vira-latas magricela, peludo onde não precisava e careca onde devia ter pelo. Mas o que ele tinha de feio, tinha de presença. Seu nome? A confusão em forma de frase: "Ele Que Te Diga".

A escolha do nome foi democrática e genial. Segundo o Paca, toda vez que alguém perguntava:

— Como chama esse cachorro?

A resposta vinha certeira:

— Ele que te diga.

O caos começava aí. Tinha gente que achava que era uma ofensa, outros que era segredo de Estado, e teve até um vizinho, o Seu Nivaldo, que passou três semanas achando que o cachorro era mudo.

O "Ele Que Te Diga" era um cachorro sociável, político até. Sabia o horário da padaria, da peixaria, e da escola — não por interesse educacional, mas porque era ali que ele roubava o lanche das crianças, sempre com discrição e uma piscadinha cúmplice.

Em um verão particularmente quente, o cachorro ganhou fama por salvar um menino que caiu do trapiche. Dizem que pulou na água, mordeu o calção do garoto e puxou até a margem. Outros dizem que ele só latiu até alguém aparecer. O certo é que ganhou status de herói, e foi até homenageado com um prato de coxinha e uma guirlanda de camarões, que ele devorou em segundos.

Mas a história mais famosa, contada religiosamente todo fim de ano, é a do dia em que a prefeitura tentou recolher os cães de rua. Quando chegaram, perguntaram:

— De quem é esse cachorro?

E o Paca, já com o peito estufado de orgulho, respondeu:

— Ele que te diga.

Resultado: ninguém levou o bicho, e os fiscais saíram brigando entre si, achando que estavam sendo vítimas de alguma pegadinha.

Hoje, dizem que "Ele Que Te Diga" vive nas histórias contadas embaixo do guarda-sol, nos almoços de domingo, e nas risadas que surgem do nada quando alguém pergunta inocente:

— E qual era o nome mesmo daquele cachorro?

A resposta, como sempre, é uma gargalhada coletiva seguida de um:

— Ele que te diga

O Dia em que o Tubarão Era Só Um Lambari


Matinhos, 1970 e poucos. Era verão de torrar pensamento, com o sol batendo mais forte que chinelo em menino levado. O mar parecia chá de panela esquecido no fogão, e a grande expectativa do dia era a tal pescaria na Barrinha — aquele canto onde o rio encontra o mar, o peixe se esconde e a paciência vira item de primeira necessidade.


Mas não era qualquer pescaria — era *A Pescaria*, daquelas que prometem virar lenda antes mesmo do primeiro anzol.


Os suspeitos de sempre já estavam lá: Paca, com seu jeito de quem vive mais no futuro do que no presente; Benedito, o Dito, especialista em exagerar sem piscar; José, que pescava com mais fé do que técnica; e Carlos, dono da cadeira mais remendada do litoral e das histórias mais compridas do continente.


Mas quem roubava a cena era ele: o cachorro. Magricela, esperto, e com nome de charada — *Ele Que Te Diga*. Apareceu trotando com cara de quem sabia que aquele dia ia render. Parou ao lado do Paca, se sacudiu todo, e ficou encarando a Barrinha como um velho pescador de quatro patas.


Carlos lançou sua isca bem no encontro das águas, com a calma de quem já negociou com garça e venceu.


— Hoje vai. Hoje eu pego o bicho — anunciou, como se estivesse invocando um espírito do mar.


O começo foi morno. Um bagre, um cará, uma sandália havaiana que o Dito jurou ser da marca francesa “Havainê”. Até que, de repente, a vara do Carlos entortou como anzol esquecido no sol.


A cadeira virou, o isopor saiu navegando pro rio, e o boné do homem voou como gaivota assustada. Quem resgatou? *Ele Que Te Diga*, que se atirou na água barrenta, voltou com o boné na boca e o rabo abanando como se dissesse: “Acompanhem os trabalhos”.


Enquanto isso, Carlos travava um duelo digno de rádio novela. A beira da Barrinha virou arquibancada. Tinha gente com binóculo, outro com terço na mão, e até uma senhora da padaria apareceu pra ver o "monstro".


Quando finalmente puxou o peixe, lá estava ele: um robalo parrudo, digno de respeito... mas longe de um tubarão.


Silêncio.


Então o Dito pergunta:


— Ué, cadê o tubarão?


Antes mesmo que Carlos respondesse, Ele Que Te Diga latiu duas vezes, pulou no isopor flutuando e se sentou em cima do peixe com um ar de quem encerra discussão.


As gargalhadas vieram em ondas. O robalo foi batizado de “Tubarinho”, ganhou foto na parede do armazém do Zé e, dizem, até um samba improvisado do Paca, que ninguém entendeu, mas todo mundo cantou.


Desde então, quando alguém volta da Barrinha dizendo que perdeu "o bicho grande", ninguém rebate. Só apontam pro cachorro (ou pro pedaço de pedra onde ele costumava se deitar) e dizem:


— Ele que te diga.

Paca Matinhos e o cachorro mais famoso da cidade em:


 


O Robalo, o Rio e a pescaria Que Virou Lenda


Matinhos, anos 70. Quando o Rio Matinhos ainda fazia curva e os pescadores também.

Naquele tempo, o Rio Matinhos ainda era um rio de verdade. Corria torto, meio preguiçoso, mas cheio de vida, peixes e histórias que começavam com “te juro por Deus” e terminavam com risada. E foi numa dessas manhãs de sol que Paca, João, Maneco e o inseparável “Ele Que Te Diga” decidiram pescar robalo. A missão? Trazer o almoço. O plano? Nenhum.

— Se o robalo não vier, a gente pega lambari e mente depois — decretou o João, filósofo da pesca improvisada.

Foram a pé, cada um com sua tralha: Paca com a vara de bambu do avô, Maneco com um balde furado e João com o famoso anzol "milagroso", que só pegava quando ninguém olhava. E o cachorro? “Ele Que Te Diga” ia na frente, farejando tudo, inclusive a marmita do Maneco, que desapareceu misteriosamente antes do meio-dia.

Chegaram num ponto do rio que tinha sombra boa, cheiro de mangue e promessas de robalo. Sentaram, jogaram as linhas e esperaram. E esperaram. E esperaram mais um pouco.

Foi aí que aconteceu o milagre: a vara do Paca entortou feito guarda-chuva na ventania. Ele gritou, puxou, escorregou na lama, caiu de bunda — mas não largou a vara. João e Maneco correram pra ajudar, e “Ele Que Te Diga” começou a latir, como se estivesse narrando o evento ao vivo.

— É robalo! — berrou Maneco.

— É tartaruga! — rebateu João.

— É um pneu velho! — gritou o Paca, já quase chorando.

Depois de cinco minutos de luta e drama, surgiu… um robalo. De verdade. Bonito, brilhoso, e com cara de quem não acreditava no que estava acontecendo. Era o primeiro robalo decente que aquele grupo via sem estar no balcão da peixaria.

Voltaram pra casa em procissão, o robalo na frente, carregado no balde furado com água pela metade. No caminho, pararam três vezes pra contar a história, duas pra mostrar o peixe e uma pra responder à pergunta mais temida:

— Quem pescou?

A resposta veio no coro ensaiado:

— Ele que te diga.

E o cachorro, como se entendesse, soltava um latido curto, quase sarcástico.

No fim do dia, o robalo virou moqueca na panela da dona Diva, que jurava que o tempero dela era melhor que o do mar. O rio? Continuou seu caminho torto até ser desviado. E a história do dia em que os quatro — três moleques e um cachorro com nome de charada — pegaram um robalo de verdade, virou lenda nas rodas de chimarrão e nos botecos.

Porque em Matinhos, nos anos 70, a verdade era maleável, o rio era vivo, e toda boa história precisava de um exagero — e de um cachorro que não explicava nada, só olhava e pensava:

— Eles que se virem.

O Dia em que Ele Que Te Diga Virou Artista.


Verão de 1974. O sol castigava Matinhos e a novidade da temporada era o Parque do Coringa, instalado bem no centro da cidade.

João, Maneco, Paca e o cachorro da turma — um vira-lata de focinho esperto — ficaram parados na frente do parque, sonhando com a montanha-russa que mais rangia do que corria. O problema era o de sempre: bolso vazio e ambição cheia.

— “Se a gente juntar o que tem, dá pra comprar um ingresso… e meio”, disse o João, fazendo as contas com palito no chão.

Foi quando o Paca olhou pro cachorro, que coçava a barriga com os dentes da calma.

— “Aí está nossa passagem, senhores.”

Sem pedir opinião, montou um pequeno palco improvisado com uma lata de goiabada, um papelão de caixa de banana e um cartaz:

“Apresentação única! O cachorro que pensa, dança e julga seus pecados!”

— “Qual é o nome do cachorro?”, perguntou um menino curioso.

Paca nem piscou:

— “Ele Que Te Diga.”

— “Ei, não precisa ser grosso!”, retrucou o pai do menino.

— “Mas é o nome dele, ué…”

Era sempre assim. Ele Que Te Diga virou uma lenda ambulante, não só pelos truques, mas pela confusão que o nome causava. Enquanto o João fazia narração empolgada, Maneco passava o boné, e o Paca dava os comandos:

— “Rola!”

— “Dá a patinha!”

— “Finge que tá entendendo o preço do açúcar!”

O cachorro obedecia com uma dignidade de artista de teatro mudo. O público foi se ajuntando — crianças, pescadores, dona Nair com o avental ainda sujo de polenta — todos encantados.

Quando o chapéu já tinha mais moedas do que esperavam ver na vida, contaram o lucro: dava pra três entradas. Mas a estrela ainda tava de fora.

Foi aí que o Genivaldo Coringa apareceu, com um sorriso torto e um cigarro apagado no canto da boca.

— “Esse bicho vale mais que metade dos brinquedos do parque. Entra como convidado, vai.”

E lá foram os quatro — ou melhor, os três e meio — rumo à montanha-russa que chacoalhava como rede furada. Ele Que Te Diga foi no colo do João, sério como juiz de futebol.

Na descida final, soltou três latidos.

— “Gostou?”, perguntou o Maneco.

— “Ou tá pedindo o cachê”, disse o Paca.

— “Ou reclamando do nome”, arriscou João.

Mas isso, ele que te diga.

O Dia em que Ele Que Te Diga Quase Virou Iluminado.

 



Matinhos, verão de 1977. Calor de derreter promessa e a turma, como sempre, sem dinheiro, sem rumo e com uma vontade danada de viver aventuras.


Era quase meia-noite quando João, Maneco, Paca e o cachorro — Ele Que Te Diga, sempre ele — resolveram ir até a praia ver “se a maré dava alguma coisa”. O plano era simples: catar siri, assustar turistas e voltar antes do sermão da Dona Olga.


Foi quando o Maneco viu.

Um brilho, ali perto das pedras do costão. Azul? Amarelo? Roxo? A cor mudava mais que opinião de pescador.


— “Tá vendo isso?”, cochichou.

— “Vixi... é sereia ou disco voador?”, respondeu o João.


Mas o Paca foi certeiro, como sempre:

— “É ela. A tal da Pedra Que Brilha. Meu avô já contou. Diz que quem acha pode fazer um pedido.”


— “E o que tem que fazer?”, perguntou o João, com mais medo do que fé.

— “Só não pode contar pra ninguém. E o coração tem que tá limpo, tipo banheiro de veranista.”


Chegaram perto devagar. A pedra brilhava mesmo, pequena, meio torta, parecendo um sabugo de milho que estudou mágica.


— “Pede aí, João!”, disse o Paca.

— “Eu? Pede tu!”

— “Manda o cachorro pedir”, sugeriu o Maneco.


O cachorro olhou pra pedra. A pedra brilhou mais forte.

Ele Que Te Diga sentou. Depois de alguns segundos de silêncio absoluto, levantou a pata, coçou a orelha, cavou um buraco imaginário e... mijou do lado.


— “Pronto. Pedido feito”, disse o João.


No dia seguinte, encontraram um pacote de bolacha Maria, fechado e seco, boiando na beirada da maré. Ninguém sabe até hoje se foi milagre, coincidência ou só sorte de cão.


Só se sabe que toda lua cheia eles voltam lá, doidos pra ver a pedra de novo.


Se ela aparece?

Ah… ele que te diga.

O Dia em que Ele Que Te Diga Enfrentou a Caninana





Matinhos, outono de 1937. O céu pesava como chumbo sobre a vila de ruas de areia batida, cercada pelo mato que parecia nunca acabar. João, Maneco, Paca e, claro, o cachorro — o famoso “Ele Que Te Diga” — passavam as tardes vagando entre as tapera, catando lenha e histórias.

Ultimamente, só se falava de uma coisa: a tal da caninana. “Cobra que mama no peito das mães e mata as crianças”, diziam. João torcia o nariz:
— “Papo de velho pra botar medo…”
Mas Paca, sempre o mais ousado, arregalava os olhos:
— “E se for verdade?”
Só Ele Que Te Diga parecia indiferente, coçando o pescoço com o pé traseiro, como quem já viu coisa pior.

Numa dessas tardes sem muito o que fazer, resolveram se embrenhar até a tapera da velha Emerinda, lá nos confins do matagal, onde diziam que a cobra andava rondando.

— “Vamos só olhar… de longe!”, combinou Maneco, já arrependido antes de sair.

Chegaram na casa aos trancos, desviando de cipós e formigueiros. A porta da tapera estava escancarada, a brisa mexendo uma cortina esgarçada. O cachorro parou na soleira, farejando o ar com o faro afiado de quem sabe quando tem coisa errada.

— “Viu? Nem o Ele Que Te Diga quer entrar!”, cochichou Maneco.

Foi quando ouviram… um choro de criança.

— “Impossível… não tem criança viva na vila!”, disse João, engolindo seco.

O choro virou gemido. E depois, um barulho de arrastar, pesado, como um tronco sendo puxado pela areia.

— “É ELA!”, gritou Paca, arregalando os olhos.

De dentro da casa, surgiu o que nenhum deles jamais esqueceria: uma cobra enorme, grossa como um poste, os olhos negros e brilhantes como vidro molhado. A ponta do rabo parecia mesmo uma chupeta maldita.

O cachorro soltou um rosnado e, sem pensar, avançou! Deu uma mordida certeira no meio do corpo da serpente, que se contorceu em fúria. Os meninos gritaram, pedras voaram, e o Ele Que Te Diga, como um herói improvável, não largava da pele viscosa da maldita.

Foi então que a velha Emerinda surgiu na porta, com um cajado nas mãos e uma prece antiga nos lábios.

— “Sai daqui, coisa ruim! Aqui só mora amor e criança viva!”

A cobra se enroscou uma última vez, mas antes que pudesse fugir, o cachorro mordeu mais forte, e a velha, num golpe de cajado, esmagou-lhe a cabeça.

Silêncio.

Só o cachorro, arfando, deitado no chão, como quem soubesse que tinha vencido a pior das batalhas.

Maneco chorava, abraçado ao Paca. João tremia, mas tentava fingir que não.

A velha pegou um punhado de sal grosso, jogou sobre o corpo da cobra, que foi se desfazendo como areia ao vento.

Depois, olhou pros meninos:

— “Podem contar essa história… mas só quem viu de perto sabe o que é a coragem.”

Eles assentiram, calados. Só o cachorro latiu três vezes, olhando pro céu.

Na volta pra vila, ninguém acreditou. Diziam que era invenção, que menino mente, que cachorro não mata cobra dessas.

Mas até hoje, quem passa pela ruína da tapera, jura ouvir um rosnado, e logo depois, um latido seco, valente.

E quanto ao nome? Bem… isso, Ele Que Te Diga.