Conforme trago na mente, segue a descrição da vila de matinhos em meados de 1955:
“uma rua de areia fofa que corta totalmente a vila e lava até o mar, grandes casas de madeira, umas já sofisticadas, com tabuas e telhas de barro, outras ainda de pau a pique e cobertura de palha. Uma praça que abrigava um campo de futebol, grandes pés de figueira que serviam de arquibancada, uma igrejinha modesta ostentando pequenas e singelas imagens de santos, o murmúrio das orações pode ser ouvido ao longe.
Os quintais se estendiam em grandes extensões, a porta da casa, um cachorro preguiçoso dorme, uma gaiola com um sapeca coleirinho que canta alegremente. Mais ao fundo, um pé de limão, um pé de mamão, o galinheiro mais retirado da casa.
As pessoas caminhando, vestem roupas simples, de flanela, panos simples, bermudas e camisas de botão para os homens, as mulheres e seus vestidos floridos, um pequeno bar pra fornecer a pinga de cada dia, uma mercearia em que o mostrador de doce gira e gira fazendo um barulho fino de uma engrenagem sem lubrificar.
Um homem caminha com um cesto a tira colo, passa por um grupo sentado aos pés de uma arvores, fumando cachimbo e jogando conversa pro ar. Assim seguia a vida na pacata Matinhos.
terça-feira, 29 de outubro de 2019
domingo, 13 de outubro de 2019
A SAGA DE DONA DIVA
Historia de Matinhos contada por um matinhense
Lendas são historias verdadeiras que tomaram forma mística, que não são mais parte da realidade, se incorporam ao que mais desejamos e queremos reviver, lendas são nossa mente querendo dar nome a magia das historias de nosso povo.
Contam os mais antigos que em meados de 1940 mais ou menos, uma professora de nome Diva Luiza Bardelli, ia e vinha na sua lida diária de dar aula, tendo por companhia seu único filho na época e Deus, coisa fácil e simples deveras, não fosse a distancia percorrida pela batalhadora professora.
Professora Diva morava onde é hoje o centro de Matinhos, e dava aula la pras bandas do cambará, ou seja, mais de horas de caminhada para cumprir com suas obrigações de educadora, nãos se queixava e ainda contam alguns ex alunos tamanha era a alegria da professora, tamanha era a felicidade com que tratava seus alunos, uma verdadeira mãe.
Nos dias de pagamento sua sina se tornava ainda mais penosa, Matinhos ainda pertencia a Paranaguá e para retirar seu pagamento andava até a cidade vizinha com seu filho no colo para poder receber o que ajudaria no sustento de sua amada família, vez ou outra pegava carona nos caminhões que eram usados para transporte de madeira que ali eram retiradas, mas quase sempre era a pé que fazia esse trajeto.
Contava a própria aos filhos de uma passagem que ainda povoa minha mente, dizia que num dia muito frio, quando ela ainda estava na estrada rudimentar, algo chama sua atenção ao mexer no mato como que para chamar sua atenção, curiosa que só, dona Diva resolve ver o que tinha ali, porem ao olhar onde vira o mato se mexer, não vê nada, e sem dar atenção, resolve continuar sua caminhada.
Mais adiante, dona Diva ouve novamente o bagunçar no mato, de novo, vai ver e nada havia, encafifada ainda vasculha os arredores mas não encontra nem vestígio.
E como de costume, tendo seu filho a tira colo continua sua marcha, num tanto do trajeto onde a estrada fazia um desvio pra dois caminhos secundários, Professora Diva vê a beira da estrada uma moita se agitar, e quando, desconfiada se aproxima, vê pular dela um tatu que sai em disparada se afastando da professora, que atendendo aos extintos Matinhenses, começa perseguir o animal por um dos caminhos, o animal sem sair da pequena estrada parecia olhar pra traz vez ou outra como que quisesse que a mulher o seguisse.
E assim foi, Dona Diva já não sabia mais porque seguia o animal, pois a noite começava a cair e o caminho tomado por ela atrasava sua andança em mais de meia hora, já que descia pelo que todos chamavam de brejo, mas algo não deixava desistir, talvez aquele seria o alimento da sua família, eram tempos difíceis, e para um bom Matinhense uma carne de tatu não podia ser dispensada.
A noite já caíra por completo, dona Diva agora avistava as fracas luzes da cidade, fracamente iluminada por velas e lampiões e na estrada próxima a sua casa, uma espécie de romaria e com mulheres e homens agitados.
Nisso o tatu, causador do seu atraso, olha uma ultima vez para dona Diva e como que por encanto, desaparece no ar, deixando a professora espantada e clamando por Deus, daquela forma que só os mais antigos sabiam fazer.
Naquela hora dona Diva ouve alguém a chamar, e ao virar-se vê a multidão sorrindo para si, e seu marido a abraçar aos prantos, então a mulher indaga o motivo daquele alarde e seu esposo entre rios de lagrimas conta que na estrada onde ela habitualmente passava, um deslizamento de terra havia acontecido, e pela demora da mulher, tinham temido pelo pior.
Dona Diva então sorri, olha para todos e diz que ela havia sido salva, salva graças a um tatu.
Muitas vezes Deus aparece em nossa vida e não entendemos, fato é que, ao tomar forma de tatu, foi para salvar a vida de uma fiel serva, dessa forma que ele age, nos salvando e nos guiando, nós que muitas vezes não nos damos conta quão perto ele está.
A SAGA DA CAETANA
Para:
Quando de boca em boca as historias são contadas, ao pé do fogo, na quentura do fogão a lenha, elas se tornam mais que historias, com o passar dos anos, elas tomam corpo e forma de lendas, todo povo tem as lendas passadas de pai para filho e assim seguidamente.
Contam os mais antigos que quando em Matinhos tudo ainda era mato, quando tudo ainda era verde, o mar era para pesca e os rios pra matar a sede das pessoas, que pras bandas de Caiobá, morava uma professora de nome Caetana, que vinha todos os dias dar aula onde hoje é o centro de Matinhos, para sua locomoção, se utilizava de um cavalo, não muito veloz nem muito forte, mas que atendia aos anseios da jovem professora, levando e a trazendo nas aulas diárias.
Era medo de 1900, a cidade como a conhecemos hoje nem passava na mente dos moradores, não havia estradas regulares, os trajetos eram feitos a beira mar e quando muito, por pequenos caminhos traçados pelo uso diário do caboclo.
Dona Caetana como era conhecida dentre todos, fazia esse trajeto diário, quase sempre solitária, uma vez que o único perigo que se tinha de morte violenta era cair do cavalo ou mesmo se afogar no mar, dessa forma, dia após dia, Professora Caetana montada em seu cavalo e com seu material a tira colo, ia e vinha de Matinhos com a naturalidade de que vai ao mercado comprar pão.
Numa dessas vindas, dona Caetana já chegava perto da sua casa, pelo avançar da hora deveria ser umas 8 da noite, o céu estrelado e quente, mostravam que o verão já estava a porta tomando lugar de mais um frio inverno que se passara.
Havia ali um riacho, onde vez ou outra dona Caetana parava para dar de beber o animal, sedento devido ao longo percurso e a noite quente que fazia, então ao se aproximar das águas puras do riacho, o cavalo para de imediato como que assombrado, dona Caetana ainda esporeia o animal que não sai do lugar, mau dizendo o animal, que mantinha pernas presas ao chão como que encantado, nesse instante, como que brotada da terra, uma onça da o bote no cavalo jogando Caetana longe, com a queda ela fica jogada ao chão como se a queda lhe tivesse tirado a vida.
A onça, querendo se aproveitar da ocasião, se lança na direção de dona Caetana que se tornara presa fácil ao animal em busca de alimento, quando estava a um passo da vitima, o cavalo, fiel companheiro se lança contra o animal num gesto heróico para salvar sua dona, dizem que o relincho do cavalo era semelhante a uma voz humana que no momento de medo e pavor gritava o nome da sua dona, "Caetana, Caetana".
Ouvindo aqueles berros a onça de imediato sai em disparada, sem ao menos olhar para trás, deixando atrás de si um rastro de folhas e galhos erguidos com a sua fuga.
Dona Caetana, recobra os sentidos e não vendo mais a onça, monta em seu protetor e parte rumo a sua casa.
Dizem que Caetana no dialeto dos animais significa onça, e que para os caçadores Caetana também é onça, então, ao ouvir alguém gritar "Caetana" a onça se afastava, pois temia o assedio dos caçadores, e que foi isso que aconteceu, mas cavalo não fala, isso todos se perguntam ainda hoje, bem, como um milagre de Deus, dizem os mais crentes, que foi Deus que deu o poder da fala para que o animal pudesse falar, e salvar a vida da sua dona.
Pode ser que isso nem tenha realmente acontecido, que o cavalo assustado tenha derrubado sua dona, que não houvesse onça, nem perigo algum, mas o que torna a historia uma lenda é o fato de fascinar as pessoas com a facilidade que se fascina uma criança pelo brinquedo novo.
Já se passaram mais de 100 anos desde o fato com Dona Caetana, historia que foi passada de boca em boca, que foi passada de geração em geração, que se torna a cada vez que é falada, uma lenda ainda mais forte e presente na vida das pessoas, no coração dos Matinhenses.
Dizem que em certas noites de verão, quando se silencia o barulho dos carros, se ficar quietinho, só ouvindo, ainda pode-se ouvir a onça correndo desvairada, o cavalo que ainda sussurra em meio ao choro do mar, CAETANA, CAETANA!
Contam os mais antigos que quando em Matinhos tudo ainda era mato, quando tudo ainda era verde, o mar era para pesca e os rios pra matar a sede das pessoas, que pras bandas de Caiobá, morava uma professora de nome Caetana, que vinha todos os dias dar aula onde hoje é o centro de Matinhos, para sua locomoção, se utilizava de um cavalo, não muito veloz nem muito forte, mas que atendia aos anseios da jovem professora, levando e a trazendo nas aulas diárias.
Era medo de 1900, a cidade como a conhecemos hoje nem passava na mente dos moradores, não havia estradas regulares, os trajetos eram feitos a beira mar e quando muito, por pequenos caminhos traçados pelo uso diário do caboclo.
Dona Caetana como era conhecida dentre todos, fazia esse trajeto diário, quase sempre solitária, uma vez que o único perigo que se tinha de morte violenta era cair do cavalo ou mesmo se afogar no mar, dessa forma, dia após dia, Professora Caetana montada em seu cavalo e com seu material a tira colo, ia e vinha de Matinhos com a naturalidade de que vai ao mercado comprar pão.
Numa dessas vindas, dona Caetana já chegava perto da sua casa, pelo avançar da hora deveria ser umas 8 da noite, o céu estrelado e quente, mostravam que o verão já estava a porta tomando lugar de mais um frio inverno que se passara.
Havia ali um riacho, onde vez ou outra dona Caetana parava para dar de beber o animal, sedento devido ao longo percurso e a noite quente que fazia, então ao se aproximar das águas puras do riacho, o cavalo para de imediato como que assombrado, dona Caetana ainda esporeia o animal que não sai do lugar, mau dizendo o animal, que mantinha pernas presas ao chão como que encantado, nesse instante, como que brotada da terra, uma onça da o bote no cavalo jogando Caetana longe, com a queda ela fica jogada ao chão como se a queda lhe tivesse tirado a vida.
A onça, querendo se aproveitar da ocasião, se lança na direção de dona Caetana que se tornara presa fácil ao animal em busca de alimento, quando estava a um passo da vitima, o cavalo, fiel companheiro se lança contra o animal num gesto heróico para salvar sua dona, dizem que o relincho do cavalo era semelhante a uma voz humana que no momento de medo e pavor gritava o nome da sua dona, "Caetana, Caetana".
Ouvindo aqueles berros a onça de imediato sai em disparada, sem ao menos olhar para trás, deixando atrás de si um rastro de folhas e galhos erguidos com a sua fuga.
Dona Caetana, recobra os sentidos e não vendo mais a onça, monta em seu protetor e parte rumo a sua casa.
Dizem que Caetana no dialeto dos animais significa onça, e que para os caçadores Caetana também é onça, então, ao ouvir alguém gritar "Caetana" a onça se afastava, pois temia o assedio dos caçadores, e que foi isso que aconteceu, mas cavalo não fala, isso todos se perguntam ainda hoje, bem, como um milagre de Deus, dizem os mais crentes, que foi Deus que deu o poder da fala para que o animal pudesse falar, e salvar a vida da sua dona.
Pode ser que isso nem tenha realmente acontecido, que o cavalo assustado tenha derrubado sua dona, que não houvesse onça, nem perigo algum, mas o que torna a historia uma lenda é o fato de fascinar as pessoas com a facilidade que se fascina uma criança pelo brinquedo novo.
Já se passaram mais de 100 anos desde o fato com Dona Caetana, historia que foi passada de boca em boca, que foi passada de geração em geração, que se torna a cada vez que é falada, uma lenda ainda mais forte e presente na vida das pessoas, no coração dos Matinhenses.
Dizem que em certas noites de verão, quando se silencia o barulho dos carros, se ficar quietinho, só ouvindo, ainda pode-se ouvir a onça correndo desvairada, o cavalo que ainda sussurra em meio ao choro do mar, CAETANA, CAETANA!
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Guerra entre culturas
Guerra entre culturas!
Guerra das culturasSentado em um banco de rodoviária, um homem de estatura mediana e sorriso simples pitava um cigarro de palha soltando fumaça ao ar e cuspindo vez ou outra, aquele tipo de pessoa com ar de gente do sitio.
Nisso chega um homem apressado, que vê o caboclinho sentado e pergunta:
- pra que lado é o embarque pra Curitiba?
- Ali moço, no outro portão, diz o caboclo com ar tímido.
- estou indo embora desse litoral, lugar de povo sem cultura, sabe me dizer que horas são homem, pego o ônibus as 11:30.
- rapais" pelo jeito já deve ser umas 11:25.
- cadê o relógio? Como sabe as horas sem relógio?
- "dicerto" que você num sabe, "so matero homi", sei das hora só "di" "oia" as coisa.
- sem brincadeiras meu senhor, sem olhar o relógio, como pode saber as horas?
- lido com isso desde "minino", aprendi com meu pai que aprendeu com vovô...
- faça-me o favor cara, coisa mais mentirosa, saber as horas só de olhar as coisas...
- é "verdadi", ?cruis" credo menti pro "sinhor".
- não acredito numa só palavra, alem disso você está me fazendo perder tempo homem, meu ônibus sai as 11:30 e não tenho tempo a perder...
- mas "homi", como você chama de bobagem minha cultura, largue mão disso você deve respeitar minha cultura, diz o caboclinho cuspindo no chão e pitando.
- cultura nada "caiçara", você é um enganador, não pode saber as horas assim de maneira alguma.
- te provo, diz ele sorrindo.
- então prove caiçara, prove que fala a verdade.
- sei que agora, olhando bem ao "redó", já deve ser umas 11:33 mais ou menos...
- caramba, falsário, até os minutos você sabe só de olhar? Seu enganador, prove agora que é essa mesmo a hora certa.
- fácil di mais, seu ônibus não sai as 11:30?
- sim...
Então, faz uns 3 minutos que ele foi embora, diz o caboclinho rindo da cara do outro.
Tu mata mas não come
Tu mata mas não come
Eu, Matinhense legitimo, de pai, mãe, avós e bisavós da terra, mais do que ninguém tem o dever de resgatar os contos causos e lendas do nosso povo. Onde alguém pode enxergar uma historia qualquer, um conto sem sentido talvez, eu enxergo meu passado, a certeza de que meu povo fez, e sempre fará historia.
Diz-se que por meados do ano de 1930, um caçador cujo nome se perdeu, talvez por essa historia ser daquelas contada de boca em boca sem nunca ter sido documentada, morava ali pras bandas do sertãozinho com sua esposa em seu rancho de taquara e ripa de palmito.
Da terra tiravam o alimento básico, arroz, feijão, mandioca, cará e o próprio palmito, dos rios tiravam os peixes como complemento. A atividade principal do homem da casa era a caça, caçava-se o ano todo, respeitando claro as épocas de reprodução de cada animal, no inverno caçavam mamíferos e aves, no verão, lagarto e alguma espécie de pássaro.
Num certo dia de inverno, o amanhecer ainda era distante, o homem já estava de pé, a mulher acendia o fogão de lenha para então preparar o café para o esposo, que sentado a mesa rústica, fazia os últimos ajustes na espingarda fogo central calibre 28, colocava cartuchos na cartucheira e limava o facão, fiel companheiro das caçadas.
Tomado o café o homem veste a bota sete léguas, põem a espingarda a tira colo e ia partir quando a mulher sai a porta e diz ao marido: - Deus que te ajude fazer uma boa caçada, o homem então se vira, cospe de lado e olhando a amasia fala: só se ele puxar o gatilho pra mim! E sorrindo parte sem dizer mais nada, deixando a esposa a porta com visível cara de tristeza.
Depois de quase um dia todo de caçada, o homem já esta no caminho de volta, quando ele avista num galho de arvore um macuco, espécie de pássaro de grande porte, mais que depressa o homem faz pontaria, nesse instante uma voz diz: - tu mata mas não come. Ele então vira o rosto a procura de quem havia dito aquilo, não encontrando nada e pensando se tratar da sua imaginação faz pontaria novamente, e a voz torna a repetir como que um aviso fúnebre, tu mata mas não come, ele novamente procura ao redor e faz pontaria ao mesmo tempo que a voz ameaça novamente, tu mata mas não come, então irritado o homem fazendo pontaria e não querendo perder a pose fala, então quero ver se não como, e puxando o gatilho mata a ave que vai tombar junto a terra úmida, sorrindo o caboclo coloca a ave no bornal e parte pra casa, sem dar a devida importância para o aviso que dizia, TU MATA MAS NÃO COME!
Chegando em casa, sem perder tempo o homem ordena a esposa para que limpe e prepare o pássaro, pois após banho iria comer o mesmo imediatamente, sem entender mas não querendo contrariar o esposo, a mulher faz o que fora pedido de forma que 30 minutos depois a ave já estava cozida e sobre a mesa a espera do marido.
Ele então senta-se a mesa, coloca em seu prato, junto a uma boa quantidade de farinha branca e molho, a mulher o observa, quando vai levar a colher a boca, de estalo arregala os olhos leva as mãos ao peito e cai ao chão como que fulminado por uma força estranha que lhe tira a vida dando validade a previsão da voz que dizia, tu mata mas não come.
Porque não acreditamos naquilo que não vemos, preferimos pagar pra ver?
O respeito é divino, quando o desconhecido se apresenta ele tem um motivo, não nos custa respeitar, o homem pagou com a vida o desrespeito ao desconhecido, se a voz dizia que tu mata mais não come, na certa tinha uma explicação, mas a arrogância humana nos impede de entender os desígnios divinos.
Da terra tiravam o alimento básico, arroz, feijão, mandioca, cará e o próprio palmito, dos rios tiravam os peixes como complemento. A atividade principal do homem da casa era a caça, caçava-se o ano todo, respeitando claro as épocas de reprodução de cada animal, no inverno caçavam mamíferos e aves, no verão, lagarto e alguma espécie de pássaro.
Num certo dia de inverno, o amanhecer ainda era distante, o homem já estava de pé, a mulher acendia o fogão de lenha para então preparar o café para o esposo, que sentado a mesa rústica, fazia os últimos ajustes na espingarda fogo central calibre 28, colocava cartuchos na cartucheira e limava o facão, fiel companheiro das caçadas.
Tomado o café o homem veste a bota sete léguas, põem a espingarda a tira colo e ia partir quando a mulher sai a porta e diz ao marido: - Deus que te ajude fazer uma boa caçada, o homem então se vira, cospe de lado e olhando a amasia fala: só se ele puxar o gatilho pra mim! E sorrindo parte sem dizer mais nada, deixando a esposa a porta com visível cara de tristeza.
Chegando em casa, sem perder tempo o homem ordena a esposa para que limpe e prepare o pássaro, pois após banho iria comer o mesmo imediatamente, sem entender mas não querendo contrariar o esposo, a mulher faz o que fora pedido de forma que 30 minutos depois a ave já estava cozida e sobre a mesa a espera do marido.
Ele então senta-se a mesa, coloca em seu prato, junto a uma boa quantidade de farinha branca e molho, a mulher o observa, quando vai levar a colher a boca, de estalo arregala os olhos leva as mãos ao peito e cai ao chão como que fulminado por uma força estranha que lhe tira a vida dando validade a previsão da voz que dizia, tu mata mas não come.
Porque não acreditamos naquilo que não vemos, preferimos pagar pra ver?
O respeito é divino, quando o desconhecido se apresenta ele tem um motivo, não nos custa respeitar, o homem pagou com a vida o desrespeito ao desconhecido, se a voz dizia que tu mata mais não come, na certa tinha uma explicação, mas a arrogância humana nos impede de entender os desígnios divinos.
O medo do tarrafeador
O medo do tarrafeador!
Quando você pensa em Matinhos, década de 20, 30, 40 quem sabe, um pequeno vilarejo, luz de velas, lampião, fogueiras, alem disso, a lua e o sol eram as formas de iluminação.
Pois bem, pensando assim, não me admira nada a quantidade de historias e causos sobre assombrações, mula sem cabeça, boi tatá e outros, alem disso, as longas conversas ao pé do fogo regadas a grandes tragos de cachaça também eram a causa de algumas historias.
Essa me foi contada pelo meu pai, o Paca, e reconto agora, com uns toques da minha fértil imaginação, mas em sua essência a historias é essa:
“era uma noite fria, como todas as noites de inverno, no ano de 78, o frio era ainda mais cortante, castigava os moradores, mas o frio que congela no litoral é o mesmo que traz a abundante pesca da tainha, época essa em que todos os nativos aproveitam para lotar as dispensas, tamanha fartura, o peixe precisava ser armazenado, ai surgiam a cambira, o peixe seco e outros.
Naquela noite, alias, naquela madrugada, alguns pescadores após as velhas historias de assombrações e terror haviam desistido da pesca, apenas um homem ficara fazendo hora, ao pé do fogo, solitário e esperançoso na pesca.
Alguns minutos depois, ele coloca o cesto a tira colo, preso por uma corda entrelaçada, ajeita a tarrafa e vai para a pesca.
Pra quem não sabe, o movimento de tarrafear consiste em após arrumar a tarrafa, chamamos de “safar” e faz-se um giro com o corpo, a tarrafa é balançada, com um sincronismo milimétrico é lançada a água e cai aberta.
Em seu primeiro giro de tarrafada, o pescador sente algo açoitar suas costas, como se alguém o estivesse atacando com uma corda, chicote ou algo similar. Atormentado pelas velhas historias e assustado por estar só, as 04 da manhã, ele se vira de imediato pronto para enfrentar quem o atacava.
Não havia ninguém, o silencio era tanto que só o barulho do mar tocando as ondas era ouvido, e ele crendo ser coisa criada por sua mente, recolhe a rede e se prepara para tarrafear novamente.
Desta vez a chicotada é ainda mais forte, ele se vira de pronto, já clamando todas as rezas que conhecia, porem mais uma vez, nada, ninguém.
Como todo bom caboclo, apesar do medo, ato continuo, recolhe a rede e arma para mais uma tentativa, outra vez sente a chicotada nas pernas, desta vez ele sai imediatamente da água e rezando pra todos os santos guiarem ele até em casa.
Já na areia ele tira o cesto que estava com a alça atravessada em seu corpo, a tira colo, e então começa a rir como louco. Havia percebido, ao recolocar o cesto, havia esquecido de amarrar uma tira de couro que deveria ir presa a sua cintura para dar estabilidade na hora da pesca, então, na hora do giro, e a tira molhada, criavam um movimento que se assemelhava a uma chicotada.
Rindo muito, o pescador arruma o cesto adequadamente e volta pesca, diz-se por ai que naquela noite pegou mais de 10 kg de peixe, mas ai eu acredito que seja historia de pescador!
Cultura caiçara . Uma historia que me foi passada de pai pra filho
Conforme eu envelheço, perco a agilidade dos meus 15 e tantos anos, sinto-me perder acima de tudo, as memórias de um passado distante, que na verdade nem vivi, mas ouvi, tomei para mim, conforme eu, nativo do altivo litoral, Matinhense de todas as gerações, me sinto então, no dever de não dever nada aos meus filhos, por isso, retrato aqui uma historia que me foi passada de pai pra filho, e os meus terão o direito de conhecê-la.
Não é de hoje que a imaginação infantil é o maior criador de historias e causos, capaz de florear qualquer deserto e dar luz ao mais profundo dos abismos. Em matinhos, em meados da década de 60, uma família morava lá pras bandas da praia dos pescadores, onde hoje é o centro da cidade, casinha de tapera, galinheiro no quintal, dois cachorros deitados erguendo vez ou outra a cabeça ao sentir presença humana, um coleiro cantador em uma gaiola pendurada na parede da casinha. Dos 8 filhos, três em idades quase próximas, o mais velho com seus 14 anos, uma menina de 12 e um mais novo com 6 ou 7 anos na ocasião.
A renda naquela época era baseada na pesca, caça, lavoura, uns poucos eram funcionários públicos, mas a grande maioria se virava como podia, mas viviam bem e eram felizes.
As três crianças em questão, como não se pode duvidar, também tinham seus gastos, e diante disto, precisão de dinheiro. Após inúmeras tentativas de ganhar dinheiro, venda de suco de limão, ajudar a puxar canoa, venda de limões, os restantes do suco, e outras tantas, estavam cabisbaixos naquela tarde quente de março, aos pés de uma goiabeira, quando uma senhora, nos seus mais de 60 anos, se aproxima e ao indagar a tristeza do trio, obtém a resposta sobre a crise financeira pela boca do mais novo com olhar triste e profundo.
A renda naquela época era baseada na pesca, caça, lavoura, uns poucos eram funcionários públicos, mas a grande maioria se virava como podia, mas viviam bem e eram felizes.
As três crianças em questão, como não se pode duvidar, também tinham seus gastos, e diante disto, precisão de dinheiro. Após inúmeras tentativas de ganhar dinheiro, venda de suco de limão, ajudar a puxar canoa, venda de limões, os restantes do suco, e outras tantas, estavam cabisbaixos naquela tarde quente de março, aos pés de uma goiabeira, quando uma senhora, nos seus mais de 60 anos, se aproxima e ao indagar a tristeza do trio, obtém a resposta sobre a crise financeira pela boca do mais novo com olhar triste e profundo.
A velha senhora de aspecto sóbrio e cabelos brancos como a neve, uma renda negra cobria o cabelo e metade do rosto, se aproxima ainda mais, os observa por algum tempo e então propõe; querem ganhar dinheiro? Eu tenho um trabalho para vocês, tragam todos os dias, em minha casa antes das 8 da manhã, morcegos, vivos, e eu lhes darei o dinheiro.
Os três trocam olhares, assustados, do mais novo ao mais velho, conforme a velha vai se afastando, eles caminham por uma ruazinha de terra, não olham pra traz, até que o mais novo sai em correria, sendo imitado pelos demais, que só param ao chegar em casa.No entanto, ao entardecer daquele mesmo dia, as crianças munidas de coragem desumana, saem na caça do novo ouro de Matinhos.
Como se caça morcego? Uma vara de bambu grande e extremamente fina na ponta, escolhe-se um local com grande quantidades do animal, então agite a vara no ar com força, o resto ocorre de forma natural. Em menos de meia hora, 9 morcegos são apanhados e postos em uma gaiola, a menina se incumbe desse trabalho, auxiliada por uma folha de sombreiro pois a falta de dinheiro não é maior que o nojo.
No outro dia, cedinho, eles vão até a casa da velha senhora, ela já os espera no portão de casa, apanha a gaiola e entrega o dinheiro ao menino mais velho, se vira e começa a voltar pra casa, os meninos vão embora, e começam a correr quando ao fundo ouvem, ou pensam que ouvem uma gargalhada estridente.
O comercio dura uns dois anos, não é trocada uma só palavra entre as crianças e a velha senhora, em suas mentes infantis mil e um pensamentos sobre o que a senhora fazia com os animais, a chamavam de bruxa, feiticeira, no entanto era só preconceito infantil infundado, quem sabe.
Era um domingo, apesar de 18 morcegos aprisionados, são impedidos de irem ao encontro da velha senhora, pois naquele dia, sua mãe insistia e os obrigava a irem a igreja, dessa forma, faltariam ao encontro marcado de mais de dois anos.
No outro dia, logo cedo, se arrancam para o encontro com a mulher do véu negro, ao chegarem, não encontram a mulher, como nos dias anteriores, aguardam por algumas horas, quando estão cansados da espera,se deparam com um envelope preso no mourão da velha porteira, abrem e encontram o dinheiro respectivo pelos morcegos apanhados, ao mesmo tempo em que um homem todo vestido de branco surge como fantasma e diz:
Não a procurem mais, pois ela morreu no domingo.
As crianças então correm, de volta pra casa, dinheiro em mãos, medo aflorando, sem entender, e com uma preocupação na cabeça, o que fariam agora para ganhar dinheiro...
Matinhos - Quem não conhece uma casa de caboclo?
Cultura de Matinhos - Quem não conhece uma casa de caboclo?
Quem não conhece uma casa de caboclo, assim diz a famosa canção, mas é fato e a pergunta persiste, quem não conhece uma casa de caboclo?
Quando o assunto é cultura, arte de um povo, não se pode esquecer a morada, o "palácio" do nosso bom caboclo.
Em matinhos o antigo morador era residente de casas de pau a pique, taperinhas feitas de madeira e folhas de palmeira, chão batido e de uma simplicidade sem igual.
A casa do caboclo Matinhense era simples e bem humilde, na cozinha o fogão de lenha era muitas vezes no chão, a panela pendurada no teto por uma corrente e um fumeiro pra secar o peixe, no fumeiro comum eram os peixes a secar, salgados e escalados, alem de outros animais, produto das caçadas feitas pelo homem da casa.
Ranchinho humilde, sem água encanada ou televisão, ali reinava a simplicidade, as paredes de madeira, muitas vezes eram usadas para prender os antigos quadros de casamento ou das pessoas da casa, aquela retrato apagado que todos já devem ter visto na casa da avó, a paredinha cheia de frestas, causa do frio de
arrepiar, o caboclo nas noites frias de inverno, bebia e ia ao fogo se esquentar, o chão de terra batida, o teto de palha seca, artes de um povo rico, perito em sobrevivência.
Na sala tinha pouca mobília, um banco, um baú ou algo assim, pois quando a família crescia de mais, a sala virava quarto, erguia-se a tarimba, espécie de cama rudimentar feita de madeira roliça e a esteira, ali dormia as crianças, o quarto, era do casal, mas se havia um idoso na casa, o quarto era passado ao idoso em sinal de respeito. A roupa ficava em baús, as poucas cobertas eram levadas pelos homens para praia quando iam lidar com a pesca, ficando as mulheres expostas ao frio das noites frias de junho, mês de mais abundancia da tainha.
Cada morador tinha o seu banquinho, as crianças inclusive, nas refeições, sentavam-se em seus banquinhos e faziam a refeição com o prato no colo, ou raramente em uma pequena mesa geralmente na sala que era o cômodo mais amplo da casa.
O cachorro na porta, dormindo geralmente ou coçando o corpo, as galinhas pastando perto do quintal, sem muro ou cerca, sem asfalto ou carros, sem nada, com tudo.
As ruas eram caminhos, a casa do caboclo tinha aquele ar singelo, o que carinhosamente chamo de casa de avó.
De manhã o cheiro de café e bolinho de chuva, infestava a casa, casa de caboclo simples casa de um povo feliz, na simplicidade era perfeita, casa de caboclo é passado, na mente uma lembrança e nostalgia em poder rever o que foi nossa casa um dia.
Já dizia a musica, Quem não conhece uma casa de caboclo Não faça pouco vá lá em casa passear, Um cafezinho com bolinhos não demora Conforme a hora também fica pra jantar. Casinha simples encostada ao pé da serra, Se é amigo não repara onde eu moro, Vá ver de perto o meu céu aqui na terra, E conhecer as criancinhas que eu adoro. Quem não conhece uma casa de caboclo, feche os olhos, vamos juntos sonhar!
Quando o assunto é cultura, arte de um povo, não se pode esquecer a morada, o "palácio" do nosso bom caboclo.
Em matinhos o antigo morador era residente de casas de pau a pique, taperinhas feitas de madeira e folhas de palmeira, chão batido e de uma simplicidade sem igual.
A casa do caboclo Matinhense era simples e bem humilde, na cozinha o fogão de lenha era muitas vezes no chão, a panela pendurada no teto por uma corrente e um fumeiro pra secar o peixe, no fumeiro comum eram os peixes a secar, salgados e escalados, alem de outros animais, produto das caçadas feitas pelo homem da casa.
Ranchinho humilde, sem água encanada ou televisão, ali reinava a simplicidade, as paredes de madeira, muitas vezes eram usadas para prender os antigos quadros de casamento ou das pessoas da casa, aquela retrato apagado que todos já devem ter visto na casa da avó, a paredinha cheia de frestas, causa do frio de
arrepiar, o caboclo nas noites frias de inverno, bebia e ia ao fogo se esquentar, o chão de terra batida, o teto de palha seca, artes de um povo rico, perito em sobrevivência.Na sala tinha pouca mobília, um banco, um baú ou algo assim, pois quando a família crescia de mais, a sala virava quarto, erguia-se a tarimba, espécie de cama rudimentar feita de madeira roliça e a esteira, ali dormia as crianças, o quarto, era do casal, mas se havia um idoso na casa, o quarto era passado ao idoso em sinal de respeito. A roupa ficava em baús, as poucas cobertas eram levadas pelos homens para praia quando iam lidar com a pesca, ficando as mulheres expostas ao frio das noites frias de junho, mês de mais abundancia da tainha.
Cada morador tinha o seu banquinho, as crianças inclusive, nas refeições, sentavam-se em seus banquinhos e faziam a refeição com o prato no colo, ou raramente em uma pequena mesa geralmente na sala que era o cômodo mais amplo da casa.
Típica eram as gaiolas penduradas nas paredes da casa, geralmente um bonito-lindo cantava alegremente atraindo a atenção de todos.
A casa era simples, mas o caboclo tinha orgulho de ali morar, se alguém pedia "poso", logo eram atendidas, comum entre o povo Matinhense, as visitas de fim de tarde, pra papear e fala da vida, mais comum ainda entre algumas mulheres era falar da vida alheia, o que ainda é comum por aqui.O cachorro na porta, dormindo geralmente ou coçando o corpo, as galinhas pastando perto do quintal, sem muro ou cerca, sem asfalto ou carros, sem nada, com tudo.
As ruas eram caminhos, a casa do caboclo tinha aquele ar singelo, o que carinhosamente chamo de casa de avó.
De manhã o cheiro de café e bolinho de chuva, infestava a casa, casa de caboclo simples casa de um povo feliz, na simplicidade era perfeita, casa de caboclo é passado, na mente uma lembrança e nostalgia em poder rever o que foi nossa casa um dia.
Já dizia a musica, Quem não conhece uma casa de caboclo Não faça pouco vá lá em casa passear, Um cafezinho com bolinhos não demora Conforme a hora também fica pra jantar. Casinha simples encostada ao pé da serra, Se é amigo não repara onde eu moro, Vá ver de perto o meu céu aqui na terra, E conhecer as criancinhas que eu adoro. Quem não conhece uma casa de caboclo, feche os olhos, vamos juntos sonhar!
Cultura Matinhense - A Pobre da Iracema
Cultura Matinhense - A Pobre da Iracema
A riqueza com que cada detalhe de uma singela canção ainda povoa a minha mente, me faz ansiar por conta-la, reescrever esta historia que me foi cantada em versinhos.
O ano eu não sei exatamente, meados da década de 60, quem sabe, em Matinhos, mais precisamente no morro da caixa d’água, morava uma linda morena, em uma casinha simples, de pau a pique, com seus idosos pais, a linda Iracema
Iracema era moça trabalhadora, como todos na pequena vila de Matinhos podiam confirmar, saia cedo para lidar com a pequena roça ao pé do morro, cuidava ainda das criações e da casa, comida e todos os afazeres domésticos, passava roupa pra fora.
Pouco tinha tempo para curtir a vida como dizemos hoje em dia, vivia para os pais, e garantir o sustento da casa. Descia o morro para ir a venda, e era sempre saudade por um jovem que lavrava a terra ali perto.
Entre trocas de olhares, sorrisos discretos e o receio normal das paqueras do interior, começaram a se envolver. O primeiro convite para um passeio nas areias de caiobá, um mergulho no rio Matinhos, uma filme do Mazzaropi no cinema do Tadeu, ela se emocionou ao assistir A tristeza do Jeca, entre outros programas possíveis a juventude Matinhense da época.
Do namoro ao noivado foi tão rápido quanto maré alta, e assim, por meses conviveram em harmonia, sorrisos, convívio familiar e a tal felicidade.
Mas como diz o ditado que tudo que é bom, dura pouco, Iracema era dessas mulheres a frente do seu tempo, queria mais para a vida, e buscava seu sonho, estudar, tornar-se professora.
E a busca deste sonho lhe tomava tempo com estudos, e causava intriga com o noivo, que, não sei se por machismo ou apenas ignorância, não queria que Iracema estudasse.
E o que era feliz tornou-se pesadelo, brigas e discussões, Iracema resolve se separar e correr pelo seu sonho. Porem o namorado não aceita o término de imediato e convence a moça a recebê-lo mais tarde para então conversarem.
Perto das oito da noite, ele chega a casa de Iracema, no morro da caixa d’água, entrega a ela, como sinal de boa intenção, um doce de goiaba caseiro, por insistência do noivo, Iracema come algumas colheradas.
Em menos de 5 minutos ela morre, sua mãe ao ver aquela cena, não contem as lagrimas e diz, pobre Iracema, foi morrer envenenada que seu noivo envenenou.
Os pais, velhos e desgostosos da vida, já iam esquecendo-se de viver, quando sua amada filha apareceu para eles, dizendo que não queria a missa de sete dias, pois Iracema já estava no céu.
Não sei ao certo onde fora sepultada Iracema, porem com muito custo seu pai fincou uma grande cruz no morro da caixa d’água, e quem se atreve a subir lá ainda pode ouvir uma voz rouca e idosa cantar:
No morro da caixa d’água morava uma linda morena, foi morrer envenenada a pobre da Iracema;
A pobre da Iracema, tanto trabalhou, passou;
Foi morrer envenenada, que seu noivo envenenou;
Já passam de sete dias, Iracema apareceu;
Dizendo, não quero missa, pois já estou no céu.
Cultura de Matinhos - O conto do Manequinho
Cultura de Matinhos - O conto do Manequinho
Quem jamais teve em sua infância a alegria das cantigas de ninar, dos cantos singelos de historias vividas ou apenas contadas, jamais vai entender o que é alegria em versos e prosa.
Uma dessas canções povoou meu pensamento anos e anos desde a infância, pequeno cântico, singela canção, rica em harmonia e detalhes que nos enchem de saudade.
Recordo-me, que lá nos meus 7 ou 8 anos meu pai, em momentos que nos reuníamos em conversas e prosas, entoava esta, entre tantas outras canções que foram cantadas por seus pais, os pais de seus pais, e os pais, dos pais de seus pais e assim continuo essa cantiga do cotidiano Matinhense, e ao fechar os olhos posso ouvir a canção.
O dia era de um sol daqueles que só o verão de Matinhos pode oferecer, as ondas tocavam a areia e ofuscavam tudo com seu brilho.
Lá para as bandas do rio da onça, o ano não posso afirmar, mas contam que apesar da cidade estar engatinhando no desenvolvimento, uma casa chamava a atenção, tamanha sua estrutura, para a época, um sobrado de madeira de lei era o que de melhor o dinheiro podia comprar.
Todos os dias, em frente ao sobrado, a filha do dono da casa, espreitava a rua, olhos fixos na estradinha de terra, quando de longe ouvia o tropel de um cavaleiro solitário que vinha em direção a plantação de abacaxi no Rio da onça.
Todos os dias, troca de olhares, ida e vinda, sorrisos, uma palavra ou outra trocada, um copo de água, um laço de afeto fora criado pela convivência.
Diz que certa feita, o cavaleiro solitário vinha montado em seu tordilho, ao avistar a bela moça sentada em sua cadeira como de costume, olha para ela sem descer do cavalo e diz:
- Hoje mais uma vez avistei a onça Bebendo água no rio aqui perto, o cavalo sentiu muito medo.
- Eu jurava que essa história de Rio da onça era mentira...
- A danada vem beber água ali todo dia.
A moça então, inquieta, nitidamente preocupada muda de assunto:
- É certo Manequinho, que o Senhor vai se casar?
- É certo, Juliana, vim aqui lhe convidar.
Como que assustadas pelo enrubescer da face da moça, um bando de periquito sai em voada de uma fruteira ali perto.
- Espere Seu Maneco, vou subir ao sobrado, lhe trazer um copo de vinho, que pra ti tenho guardado.
Maneco salta do cavalo, acaricia um velho cão que o rodeava, fica por alguns minutos a espera de Juliana, até que ela retorna com um grande copo de vinho, com as mãos tremulas entrega ao cavaleiro.
Num só gole, Maneco toma o vinho, sendo o tempo todo encarado por Juliana.
Ele tenta voltar ao lombo do cavalo, mas sua vista escura não o deixa montar.
- O que pusestes Juliana, nesse seu copo de vinho, estou com minha vista escura, não enxergo meu tordinho. Coitada da minha mãe, que pensa que esse filho é vivo...
Maneco cai, o copo de vinho se estraçalha no chão, o velho cão fareja seus cabelos e uiva em seguida sentindo a vida abandonar o corpo do pobre Maneco. Juliana olha com ódio para o corpo sem vida e diz:
- A minha também pensava que tu casavas comigo...
Deus te salve Juliana nessa cadeira sentada, é certo Manequinho, que o senhor vai se casar.
É certo Juliana, vim aqui lhe convidar.
Espere Manequinho, vou subir ao sobrado, lhe trazer um copo de vinho, que pra ti trago guardado.
O que pusestes Juliana, nesse seu copo de vinho, estou com minha vista escura não enxergo meu tordilho, coitada da minha mãe, que pensa que esse seu filho é vivo.
A minha também pensava que tu casavas comigo.”
Cultura De Matinhos - A cobra caninana
Antes de mais nada, devo dizer que: pessoas com problemas de coração, que sofrem de pânico ou simplesmente não suportam terror, que não leia esse conto.
Afinal, o que é um conto? Eu conto um conto, quando me contam algo, que juram ser verdade, mas alguém lhe contou, que jura ser verdade, pois alguém também lhe contou, jurou ser verdade, e assim sucessivamente. Então, se alguém jura ser verdade, quem tem o direito de dizer que não o é?
Matinhos, meados da década de 30, a cidade, alias, a vila, nada mais era do que meia dúzia de casas, casebres, uns bancos aleatórios no meio de uma rudimentar praça, uma modesta igreja, e um boteco, pois, pode-se faltar a igreja, mas o boteco jamais.
Em menos de 2 anos, 5 crianças após sofrer de uma desnutrição sem precedentes, acabaram vindo a óbito, apesar da precariedade vivida, esse numero era assustador, pois todas mães após ter seus filhos nos braços, não continuavam com eles, após algum tempo.
O que se dizia, é que a cobra caninana, adentrava na tapera onde repousava mãe e criança, colocava a ponta do rabo na boca do inocente, para o mesmo não chorar, e se deliciava do leite materno, dias a fio, ao mesmo tempo que a dita engordava deveras, a criança ia definhando até a morte o abraçar.
Em tempo, quase que junto ao inicio dessas mortes, mudou-se para cidade, uma senhora, nos seus noventa anos, ou mais, pouco mais de um metro e vinte de altura, corpo franzino e pele enrugada, logo, no entanto, os comentários de que se tratava de uma bruxa tomou ares de verdade e os olhares já eram de medo e assombro.
A madrugada era alta, todos dormiam, repentinamente um choro alto de criança se ouve, todos acordam, assustados, a rua é tomada por pessoas com velas e lampiões nas mãos, espingardas a tira colo, facões e facas, todos com olhares preocupados, murmúrios de orações e rezas.
Não havia crianças na vila, a ultima havia morrido no ultimo verão, de desnutrição, e desde então o medo tomara conta, e em plena madrugada um choro de criança soava como o prelúdio de coisas ruins.
Logo, a pequena multidão se aglomera na casa da velha senhora, gritando ofensas, bruxa, bruxa, um cachorro latia amarrado a casa, quando uma luz fraca de uma pequena vela ilumina a única porta, a senhora toda de branco, assustando os mais fracos, aparece e com olhar sereno fala ao povo, o que fazem a minha porta? E o povo continua bradar, enquanto o cão late, nisso, um choro ainda mais agudo de criança ecoa, vindo da pequena casa, como que em conversa entre os sons, seguido ao choro da criança, ecoa o disparo de uma arma de fogo e a velha mulher é atingida em cheio, conforme o corpo tomba, olhando o vazio,
O homem que efetuara o disparo vê a multidão o olhar, todos assustados, apesar dos pesares, não se tratava de uma bruxa, e olhares de pena agora eram unidos aos de medo.
Nisso, um vento sopra das montanhas e a lua aparece viva, a noite se ilumina como dia e após um breve gemido de agonia, a velha vai mudando de cor, e o corpo vai se esticando, tomando forma, em menos de meio minuto, diante dos olhares incrédulos, o corpo franzino se transforma em uma cobra de quase dois metros de comprimento que se debate, até que um dos moradores, fulmina com um golpe de facão na cabeça.
Na multidão, o homem que atirara, ainda com a arma fumegando nas mãos, não crê no que vira, e assustado ainda olha quando o corpo do animal vai ressecando, como se a vida lhe fosse sugada, e logo depois, apenas um amontoado de pó resta para contar historia.
Da porta do casebre, surge uma mulher com uma criança nos braços, chorando ao mesmo tempo que o marido solta a espingarda de caça e a abraça.
Ninguém entende, e ela após um copo de água com açúcar conta:
“escondi minha gravidez, tive medo de que meu bebe fosse acometido dessa doença maldita que matou todos as crianças da cidade, e por isso, me retirei, dissemos, meu esposo e eu que eu iria para Guaratuba passar uns dias com minha mãe, essa senhora, dona Emerinda, sentiu que eu estava grávida, por isso nos procurou e disse que poderia evitar o pior, ia fazer uma reza e com isso a maldita cobra não atacaria nossa casa. Meu filho nasceu pelas mãos dela, nessa noite, só que quando ele ia mamar, a maldita se transformou em cobra, ia me matar, mas meu anjo sentiu que a mãe dele corria perigo e gritou, um bebe recém nascido com força para gritar como gente grande, isso foi Deus, um milagre para nos livrar desse diabo”.
Ao fim do relato, pessoas choravam, outras rezavam, do leite materno a diaba retirava não só o alimento, mas sugava a vida das crianças para si, e vivia por anos e anos, talvez a velha tivesse 200, 300 anos.
Um homem descalço então olha para o colega e comenta, o erro da maldita foi q
uerer fazer mal a mãe da criança, graças a isso o filho salvou sua mãe, e agora estamos todos salvos.
E daquele dia em diante, crianças viveram, cresceram e foram felizes para sempre, até os dias de hoje.
Cultura de Matinhos - A linda do Lobisomem
Essa eu ouvi da forma mais caiçara que se pode ouvir uma historia, aos pés de uma fogueira de troncos, a beira mar, nas areias do belo balneário de caiobá, numa madrugada fria e escura, entre uma sova e outra da pesca da tainha.
Diz-se por ai que em Matinhos, meados da década de 20 ou 30, uma fera ameaçava a calma e a tranquilidade da então vila. Conto agora, com os mesmos detalhes a mim passados, ou mais, ou menos.
Quando não havia luz elétrica, ruas ou estradas, a não ser nos grandes centros, o povo se contentava com luz de vela, lampião e a luz da lua. Numa dessas noites onde a lua não aparecera, se não por de traz de uma nuvem negra, já na madrugada, em uma das casas de caboclo, um velho cão começa a latir, ao mesmo tempo em que as galinhas presas em um rudimentar galinheiro começam a cacarejar como loucas.
Em menos de 3 minutos o cão se cala, as galinhas silenciam, ao chegar, lampião em mãos, o proprietário encontra suas aves mortas, dilaceradas.
E isso se repetia semanalmente, mensalmente talvez, fato é que em determinado tempo, não havia um morador sequer que não tivesse recebido a visita da fera, galinhas, patos, cães, porcos haviam sido vitimas, todos estavam preocupados.
Em matinhos os mais variados boatos surgiram, o boitatá, coisa de outro mundo, o lobisomem, o saci, tantas historias contadas, fulano viu o boitatá atacando, beltrano deu uma pelotada no saci, é o coisa ruim, que o caos acabara tomando conta. Os botecos fechavam ao chegar da noite, por falta de freguesia, os cultos e rituais religiosos aconteciam de dia, a noite, não se via viva alma pelas ruas.
O frio tomava conta do ambiente, e aliado ao medo, criava um clima ainda mais sombrio, caia uma chuva fina quando se ouviu distante um chamado, foi se aproximando das casas até se ouvir nitidamente, era um pedido de socorro, alguém gritava com toda sua força, fui atacado pelo lobisomem, ele rasgou minha” japona” nos dentes, dei um tiro no danado e ele correu.
Menos de meio minuto até se formar um grupo de caça, homens armados com suas fogo central, cães acorrentados quase arrastando seus donos, tochas que iluminavam a noite mais fria daquele ano em matinhos.
Apesar do entusiasmo inicial, os homens logo desistem da caçada, e um a um vão rumando para suas casas.
Um dos caçadores, ladeado pelo fiel cão, percorre um caminho próximo, quando escuta um gemido longo, procura por algum tempo e encontra um homem caído no meio da Mata, ferimento profundo no peito. Ele ampara o
moribundo nos braços que abre os olhos e não tem tempo de dizer nada, apenas sorri. Nisso o homem percebe, em seus dentes, finos pedaços de tecido presos, como que tivessem sidos arrancados a força.
Em um instante, corpo humano vira fera, volta a ser homem e tomba a cabeça para o lado sem vida
O homem larga o corpo sem vida da fera que agora era humana e sai buscar ajuda, mas quando retornam, nem sinal do lobisomem.
Como que anunciando um novo tempo, a lua sai por de trás das nuvens e a noite escura quase vira dia em Matinhos. Daquele dia pra cá, a paz voltou a reinar nas ruas da bela e pacata Matinhos.
Assinar:
Comentários (Atom)






