Essa eu ouvi da forma mais caiçara que se pode ouvir uma historia, aos pés de uma fogueira de troncos, a beira mar, nas areias do belo balneário de caiobá, numa madrugada fria e escura, entre uma sova e outra da pesca da tainha.
Diz-se por ai que em Matinhos, meados da década de 20 ou 30, uma fera ameaçava a calma e a tranquilidade da então vila. Conto agora, com os mesmos detalhes a mim passados, ou mais, ou menos.
Quando não havia luz elétrica, ruas ou estradas, a não ser nos grandes centros, o povo se contentava com luz de vela, lampião e a luz da lua. Numa dessas noites onde a lua não aparecera, se não por de traz de uma nuvem negra, já na madrugada, em uma das casas de caboclo, um velho cão começa a latir, ao mesmo tempo em que as galinhas presas em um rudimentar galinheiro começam a cacarejar como loucas.
Em menos de 3 minutos o cão se cala, as galinhas silenciam, ao chegar, lampião em mãos, o proprietário encontra suas aves mortas, dilaceradas.
E isso se repetia semanalmente, mensalmente talvez, fato é que em determinado tempo, não havia um morador sequer que não tivesse recebido a visita da fera, galinhas, patos, cães, porcos haviam sido vitimas, todos estavam preocupados.
Em matinhos os mais variados boatos surgiram, o boitatá, coisa de outro mundo, o lobisomem, o saci, tantas historias contadas, fulano viu o boitatá atacando, beltrano deu uma pelotada no saci, é o coisa ruim, que o caos acabara tomando conta. Os botecos fechavam ao chegar da noite, por falta de freguesia, os cultos e rituais religiosos aconteciam de dia, a noite, não se via viva alma pelas ruas.
O frio tomava conta do ambiente, e aliado ao medo, criava um clima ainda mais sombrio, caia uma chuva fina quando se ouviu distante um chamado, foi se aproximando das casas até se ouvir nitidamente, era um pedido de socorro, alguém gritava com toda sua força, fui atacado pelo lobisomem, ele rasgou minha” japona” nos dentes, dei um tiro no danado e ele correu.
Menos de meio minuto até se formar um grupo de caça, homens armados com suas fogo central, cães acorrentados quase arrastando seus donos, tochas que iluminavam a noite mais fria daquele ano em matinhos.
Apesar do entusiasmo inicial, os homens logo desistem da caçada, e um a um vão rumando para suas casas.
Um dos caçadores, ladeado pelo fiel cão, percorre um caminho próximo, quando escuta um gemido longo, procura por algum tempo e encontra um homem caído no meio da Mata, ferimento profundo no peito. Ele ampara o
moribundo nos braços que abre os olhos e não tem tempo de dizer nada, apenas sorri. Nisso o homem percebe, em seus dentes, finos pedaços de tecido presos, como que tivessem sidos arrancados a força.
Em um instante, corpo humano vira fera, volta a ser homem e tomba a cabeça para o lado sem vida
O homem larga o corpo sem vida da fera que agora era humana e sai buscar ajuda, mas quando retornam, nem sinal do lobisomem.
Como que anunciando um novo tempo, a lua sai por de trás das nuvens e a noite escura quase vira dia em Matinhos. Daquele dia pra cá, a paz voltou a reinar nas ruas da bela e pacata Matinhos.

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