sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O medo do tarrafeador

O medo do tarrafeador!

Quando você pensa em Matinhos, década de 20, 30, 40 quem sabe, um pequeno vilarejo, luz de velas, lampião, fogueiras, alem disso, a lua e o sol eram as formas de iluminação.
Pois bem, pensando assim, não me admira nada a quantidade de historias e causos sobre assombrações, mula sem cabeça, boi tatá e outros, alem disso, as longas conversas ao pé do fogo regadas a grandes tragos de cachaça também eram a causa de algumas historias.
Essa me foi contada pelo meu pai, o Paca, e reconto agora, com uns toques da minha fértil imaginação, mas em sua essência a historias é essa:

“era uma noite fria, como todas as noites de inverno, no ano de 78, o frio era ainda mais cortante, castigava os moradores, mas o frio que congela no litoral é o mesmo que traz a abundante pesca da tainha, época essa em que todos os nativos aproveitam para lotar as dispensas, tamanha fartura, o peixe precisava ser armazenado, ai surgiam a cambira, o peixe seco e outros.
Naquela noite, alias, naquela madrugada, alguns pescadores após as velhas historias de assombrações e terror  haviam desistido da pesca, apenas um homem ficara fazendo hora, ao pé do fogo, solitário e esperançoso na pesca.
Alguns minutos depois, ele coloca o cesto a tira colo, preso por uma corda entrelaçada, ajeita a tarrafa e vai para a pesca.
Pra quem não sabe, o movimento de tarrafear consiste em após arrumar a tarrafa, chamamos de “safar” e faz-se um giro com o corpo, a tarrafa é balançada, com um sincronismo milimétrico é lançada a água e cai aberta.
Em seu primeiro giro de tarrafada, o pescador sente algo açoitar suas costas, como se alguém o estivesse atacando com uma corda, chicote ou algo similar. Atormentado pelas velhas historias e assustado por estar só, as 04 da manhã, ele se vira de imediato pronto para enfrentar quem o atacava.
Não havia ninguém, o silencio era tanto que só o barulho do mar tocando as ondas era ouvido, e ele crendo ser coisa criada por sua mente, recolhe a rede e se prepara para tarrafear novamente.
Desta vez a chicotada é ainda mais forte, ele se vira de pronto, já clamando todas as rezas que conhecia, porem mais uma vez, nada, ninguém.
Como todo bom caboclo, apesar do medo, ato continuo, recolhe a rede e arma para mais uma tentativa, outra vez sente a chicotada nas pernas, desta vez ele sai imediatamente da água e rezando pra todos os santos guiarem ele até em casa.
Já na areia ele tira o cesto que estava com a alça atravessada em seu corpo, a tira colo, e então começa a rir como louco. Havia percebido, ao recolocar o cesto, havia esquecido de amarrar uma tira de couro que deveria ir presa a sua cintura para dar estabilidade na hora da pesca, então, na hora do giro, e a tira molhada, criavam um movimento que se assemelhava a uma chicotada.

Rindo muito, o pescador arruma o cesto adequadamente e volta  pesca, diz-se  por ai que naquela noite pegou mais de 10 kg de peixe, mas ai eu acredito que seja historia de pescador!

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