Cultura Matinhense - A Pobre da Iracema
A riqueza com que cada detalhe de uma singela canção ainda povoa a minha mente, me faz ansiar por conta-la, reescrever esta historia que me foi cantada em versinhos.
O ano eu não sei exatamente, meados da década de 60, quem sabe, em Matinhos, mais precisamente no morro da caixa d’água, morava uma linda morena, em uma casinha simples, de pau a pique, com seus idosos pais, a linda Iracema
Iracema era moça trabalhadora, como todos na pequena vila de Matinhos podiam confirmar, saia cedo para lidar com a pequena roça ao pé do morro, cuidava ainda das criações e da casa, comida e todos os afazeres domésticos, passava roupa pra fora.
Pouco tinha tempo para curtir a vida como dizemos hoje em dia, vivia para os pais, e garantir o sustento da casa. Descia o morro para ir a venda, e era sempre saudade por um jovem que lavrava a terra ali perto.
Entre trocas de olhares, sorrisos discretos e o receio normal das paqueras do interior, começaram a se envolver. O primeiro convite para um passeio nas areias de caiobá, um mergulho no rio Matinhos, uma filme do Mazzaropi no cinema do Tadeu, ela se emocionou ao assistir A tristeza do Jeca, entre outros programas possíveis a juventude Matinhense da época.
Do namoro ao noivado foi tão rápido quanto maré alta, e assim, por meses conviveram em harmonia, sorrisos, convívio familiar e a tal felicidade.
Mas como diz o ditado que tudo que é bom, dura pouco, Iracema era dessas mulheres a frente do seu tempo, queria mais para a vida, e buscava seu sonho, estudar, tornar-se professora.
E a busca deste sonho lhe tomava tempo com estudos, e causava intriga com o noivo, que, não sei se por machismo ou apenas ignorância, não queria que Iracema estudasse.
E o que era feliz tornou-se pesadelo, brigas e discussões, Iracema resolve se separar e correr pelo seu sonho. Porem o namorado não aceita o término de imediato e convence a moça a recebê-lo mais tarde para então conversarem.
Perto das oito da noite, ele chega a casa de Iracema, no morro da caixa d’água, entrega a ela, como sinal de boa intenção, um doce de goiaba caseiro, por insistência do noivo, Iracema come algumas colheradas.
Em menos de 5 minutos ela morre, sua mãe ao ver aquela cena, não contem as lagrimas e diz, pobre Iracema, foi morrer envenenada que seu noivo envenenou.
Os pais, velhos e desgostosos da vida, já iam esquecendo-se de viver, quando sua amada filha apareceu para eles, dizendo que não queria a missa de sete dias, pois Iracema já estava no céu.
Não sei ao certo onde fora sepultada Iracema, porem com muito custo seu pai fincou uma grande cruz no morro da caixa d’água, e quem se atreve a subir lá ainda pode ouvir uma voz rouca e idosa cantar:
No morro da caixa d’água morava uma linda morena, foi morrer envenenada a pobre da Iracema;
A pobre da Iracema, tanto trabalhou, passou;
Foi morrer envenenada, que seu noivo envenenou;
Já passam de sete dias, Iracema apareceu;
Dizendo, não quero missa, pois já estou no céu.
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