Cultura de Matinhos - O conto do Manequinho
Quem jamais teve em sua infância a alegria das cantigas de ninar, dos cantos singelos de historias vividas ou apenas contadas, jamais vai entender o que é alegria em versos e prosa.
Uma dessas canções povoou meu pensamento anos e anos desde a infância, pequeno cântico, singela canção, rica em harmonia e detalhes que nos enchem de saudade.
Recordo-me, que lá nos meus 7 ou 8 anos meu pai, em momentos que nos reuníamos em conversas e prosas, entoava esta, entre tantas outras canções que foram cantadas por seus pais, os pais de seus pais, e os pais, dos pais de seus pais e assim continuo essa cantiga do cotidiano Matinhense, e ao fechar os olhos posso ouvir a canção.
O dia era de um sol daqueles que só o verão de Matinhos pode oferecer, as ondas tocavam a areia e ofuscavam tudo com seu brilho.
Lá para as bandas do rio da onça, o ano não posso afirmar, mas contam que apesar da cidade estar engatinhando no desenvolvimento, uma casa chamava a atenção, tamanha sua estrutura, para a época, um sobrado de madeira de lei era o que de melhor o dinheiro podia comprar.
Todos os dias, em frente ao sobrado, a filha do dono da casa, espreitava a rua, olhos fixos na estradinha de terra, quando de longe ouvia o tropel de um cavaleiro solitário que vinha em direção a plantação de abacaxi no Rio da onça.
Todos os dias, troca de olhares, ida e vinda, sorrisos, uma palavra ou outra trocada, um copo de água, um laço de afeto fora criado pela convivência.
Diz que certa feita, o cavaleiro solitário vinha montado em seu tordilho, ao avistar a bela moça sentada em sua cadeira como de costume, olha para ela sem descer do cavalo e diz:
- Hoje mais uma vez avistei a onça Bebendo água no rio aqui perto, o cavalo sentiu muito medo.
- Eu jurava que essa história de Rio da onça era mentira...
- A danada vem beber água ali todo dia.
A moça então, inquieta, nitidamente preocupada muda de assunto:
- É certo Manequinho, que o Senhor vai se casar?
- É certo, Juliana, vim aqui lhe convidar.
Como que assustadas pelo enrubescer da face da moça, um bando de periquito sai em voada de uma fruteira ali perto.
- Espere Seu Maneco, vou subir ao sobrado, lhe trazer um copo de vinho, que pra ti tenho guardado.
Maneco salta do cavalo, acaricia um velho cão que o rodeava, fica por alguns minutos a espera de Juliana, até que ela retorna com um grande copo de vinho, com as mãos tremulas entrega ao cavaleiro.
Num só gole, Maneco toma o vinho, sendo o tempo todo encarado por Juliana.
Ele tenta voltar ao lombo do cavalo, mas sua vista escura não o deixa montar.
- O que pusestes Juliana, nesse seu copo de vinho, estou com minha vista escura, não enxergo meu tordinho. Coitada da minha mãe, que pensa que esse filho é vivo...
Maneco cai, o copo de vinho se estraçalha no chão, o velho cão fareja seus cabelos e uiva em seguida sentindo a vida abandonar o corpo do pobre Maneco. Juliana olha com ódio para o corpo sem vida e diz:
- A minha também pensava que tu casavas comigo...
Deus te salve Juliana nessa cadeira sentada, é certo Manequinho, que o senhor vai se casar.
É certo Juliana, vim aqui lhe convidar.
Espere Manequinho, vou subir ao sobrado, lhe trazer um copo de vinho, que pra ti trago guardado.
O que pusestes Juliana, nesse seu copo de vinho, estou com minha vista escura não enxergo meu tordilho, coitada da minha mãe, que pensa que esse seu filho é vivo.
A minha também pensava que tu casavas comigo.”


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